Uma operação de resgate foi montada nesta sexta-feira para retirar a paranaense Mônica Vassão, de 25 anos, e a mineira Letícia Figueiredo Alves da Silva Campos, de 21 anos, do Superdome, estádio de Nova Orleans onde as duas estavam abrigadas em condições insalubres desde a passagem do furacão Katrina pelo Sul dos EUA. Na primeira parte da missão, as duas estão sendo levadas por via aérea para um hotel na cidade de Baton Rouge, a cerca de 100 quilômetros de Nova Orleans. Para concluir a retirada, a família que acolhe Mônica no intercâmbio cultural que a estudante realiza no Kansas, conseguiu autorização para que o namorado da brasileira entrasse na região, que está fechada para civis, para levá-la, juntamente com Letícia, para o estado no Centro dos EUA. Outros brasileiros também conseguiram deixar a caótica Nova Orleans, como o casal Antonio e Angela Medalha, que estão em um hotel em Dallas, no Texas. Entretanto alguns outros ainda encontram dificuldades para sair da devastada cidade da Louisiana. O Itamaraty informou ter recebido até esta sexta-feira 79 pedidos de localização de brasileiros na região. A angústia de Letícia Vandystadt aumenta a cada instante. Do Rio, ela tenta acionar qualquer tipo de ajuda no Brasil e no exterior para tentar descobrir o paradeiro do marido, o economista José Cândido Sampaio de Lacerda Neto, de 26 anos, que na quinta-feira disse ter sido obrigado a deixar o hotel em que estava e passou a perambular pelas ruas de Nova Orleans em busca de abrigo. Em Minas, a família de Carlos Daniel Ribeiro da Silva, também espera notícias. No último domingo, o mineiro deixou a casa em que vivia com a mulher e a filha de 9 meses, as duas americanas, na pequena cidade de Long Beach, na Louisiana, e seguiu para a residência do sogro na região de Mobile, no Alabama, estado também fortemente atingido pelo Katrina. - No último contato que tivemos, ele disse que tentaria chegar à Flórida para conseguir água potável e combustível. Ainda nem pôde voltar para ver se a casa de madeira em que morava está de pé. Provavelmente ela foi para os ares. Ele colocou tudo o que podia no carro e foi embora antes que o furacão os levasse também - disse Samuel Ribeiro da Silva, irmão de Carlos Daniel. Familiares de Carlos Henrique Borges não têm notícias do também mineiro que mora em Nova Orleans há três anos e que não se comunica com a pequena cidade de Elói Mendes, no sul de Minas, desde segunda-feira. Enquanto a angústia da espera consome uns, outros já contam as horas para receber parentes que testemunharam a passagem do Katrina. Antonio e Angela Medalha devem regressar ao Rio no sábado, vindos de Dallas, no Texas. Por causa do furacão, o engenheiro, de 58 anos, e a pedagoga, de 52, haviam deixado Miami, onde faziam turismo, na última quinta-feira, acreditando estar a salvo do desastre. - Ninguém, nem os moradores e as autoridades, esperava por isso. Mesmo assim acreditávamos que, com a velocidade do furacão, nós já estaríamos longe de Novas Orleans quando ele chegasse à cidade. Foi um engano - contou Antonio, que estava hospedado no hotel Sheraton. Sem condições de deixar a cidade, o jeito foi se abrigar no próprio hotel e esperar que o pior passasse. - Consegui ver o furacão chegando por uns quinze segundos, mas depois me disseram para me afastar da janela, pois era perigoso - relatou o engenheiro, que dormiu, juntamente com a esposa e centenas de outros hóspedes, no chão de um salão. A comida passou a ser racionada e a água era artigo de luxo: - Tínhamos que subir 36 andares de escada para conseguir tomar banho. Enchemos a banheira e tomamos banho com a mesma água durante os dias que ficamos abrigados. A fuga “pirata” A retirada de Nova Orleans aconteceu em um ônibus “pirata” que, disse Antonio, não tinha a menor condição de uso. O casal, que levou o “mínimo indispensável” em duas bolsas e deixou o resto da bagagem no hotel, conseguiu desembarcar em Baton Rouge, última escala antes do conforto de Dallas. - A cada curva que ele fazia, achávamos que íamos sair da pista - relembrou Antonio, em sua suíte no hotel cinco estrelas que ofereceu um desconto para os fugitivos do Katrina. Sônia Maria Clemente não está em um hotel, mas conseguiu fugir da tragédia. A brasileira entrou em contato com os familiares no Pará na noite de quinta-feira e disse que ela, o marido e a sogra, ambos americanos, foram removidos da casa em que moravam na cidade de Metarie, próxima de Nova Orleans, para um abrigo da Cruz Vermelha, onde estão trabalhando como voluntários, em uma região segura nos arredores de Nova Orleans. A tia, uma idosa americana que vivia com o casal, acabou morrendo. - Eles perderam tudo, mas pelo menos estão bem de saúde e seguros agora na Cruz Vermelha. Estão só com a roupa do corpo e disseram que agora é a lei da sobrevivência - contou Carlos Alberto Gonçalvez Junior, sobrinho de Sônia Maria, que mora há dez anos nos EUA. O mineiro Erivelto de Oliveira Miranda, de 46 anos, também deixou para trás a região mais problemática de Nova Orleans. Após três dias sem se comunicar com a família, ele conseguiu ligar para a filha, Mariana Miranda, e dizer que está em um acampamento em bom estado de saúde. - Ele contou que as gangues estão atuando, estão acontecendo assassinatos, roubos, assaltos e a polícia está tendo muita dificuldade de conter a ação dos bandidos - disse a filha de Erivelto. Economista brasileiro resgatado em Nova Orleans já está no Rio O economista José Sampaio de Lacerda Neto, um dos brasileiros resgatados em Nova Orleans, nos Estados Unidos, depois que a cidade foi afetada pela passagem do furacão Katrina, desembarcou às 11 horas no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. José Sampaio foi recebido no saguão do aeroporto pela mulher, Letícia Vandistad, e disse que deixou Nova Orleans depois de ficar por uma semana entre centenas de desabrigados. “Por sorte, alguns ônibus saíram para buscar umas enfermeiras da Cruz Vermelha, não as encontraram e acabaram levando a gente”, contou. O ônibus foi para a cidade de Baton Rouge e de lá Sampaio seguiu para Miami, no estado de Flórida, de onde embarcou para o Brasil.
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