Com a mão sangrando e cortada quase pela metade, o brasileiro Frank S. de Somerville, Massachusetts, não foi devidamente socorrido. Sobre duas latas de cerveja, porque não tinha escada, ele fazia o reboco de uma parede quando caiu com a pá na mão. O gerente colocou-o dentro do carro e pediu “orientações” ao dono da companhia, que não possuía o programa de compensação para os trabalhadores.
Casos como este, onde o trabalhador é totalmente desprovido de segurança, são bastante comuns entre os brasileiros. Segundo o relatório do Projeto Parceria, feito pelo pelo médico Carlos Eduardo Siqueira e pela Dra. Andréa Barbosa, de 1999 a 2007 ocorreram 16 mortes de brasileiros devido a acidentes de trabalho. O estudo, com 626 brasileiros entrevistados, revelou que os brasileiros são expostos a produtos químicos tóxicos e a um ambiente de trabalho nada seguro.
Este é o primeiro relatório conduzido nos Estados Unidos com dados sobre trabalhadores imigrantes brasileiros. A pesquisa foi financiada pelo Instituto Nacional de Ciências e Saúde Ambiental (NIEHS).
Segundo a advogada Joyce E. Davis, que representa muitos brasileiros, as áreas de construção, landscaping, limpeza e restaurantes são onde mais se encontra brasileiros sem compensação. Ainda segundo ela, alguns empregadores chegam a pedir para um funcionário ferido tirar o uniforme e mentir que o acidente aconteceu em casa. “Não é incomum então os empregadores afirmarem que o funcionário nunca trabalhou para eles, era um empreiteiro independente ou ganhava muito menos do que o real pagamento”, disse.
Consequências
Ainda de acordo com o estudo, 43% dos entrevistados, a maioria residente em Somerville, contaram que já se feriram ou carregam alguma doença ou sintoma, em decorrência do ambiente de trabalho. Problemas respiratórios, dores nas costas, juntas, tendões, músculos e ligamentos são só algumas entre as tantas consequências de um ambiente insalubre.
O relatório mostra também que quase 80% dos entrevistados não recebeu qualquer treinamento de saúde e segurança ocupacional, tanto aqui quanto no Brasil.A pesquisa revelou que os pintores brasileiros representam 37% dos casos de nível alto de chumbo no sangue.
Segundo o Dr. Siqueira, o comportamento de algumas housecleaners e trabalhadores da construção mudou, depois da publicação do documento. O médico citou a criação da Cooperativa Vida Verde, criada para dar melhor qualidade para as housecleaners, dentro e fora do ambiente de trabalho. “Os trabalhadores da construção estão mais conscientes do problema do chumbo na tinta”, disse Siqueira, complementando que conscientizar as autoridades de saúde e a todos era o objetivo do estudo.
A esperança é de que o estudo realmente conscientize tanto empregados quanto empregadores imigrantes brasileiros da importância de trabalhar com saúde e segurança.