Lúcio Souza Versão para impressão
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Logo depois de uma partida de futebol no colégio, vários adolescentes foram curtir a vitória na casa de um deles. Alguns pais também estavam presentes e aproveitaram a oportunidade para se conhecerem uns aos outros. Eles perceberam que o mundo estava bem ali naquela cidade, tinha filhos de portugueses, brasileiros, italianos, hispânicos, árabes, chineses, indianos e norte-americanos.
Através dos meninos, os pais também foram ficando amigos. E como é de costume entre amigos, eles procuravam saber qual era o trabalho de um e de outro, para poder ajudar no que fosse preciso. Freqüentavam o restaurante de um, usavam o serviço de pintura do outro, carpintaria, posto de gasolina, gráfica, advogado etc.
No meio de tantos colegas, o filho de um brasileiro era o melhor amigo do filho de um policial, e freqüentava a casa dele quase todos os dias. Um dia o policial ficou sabendo do nome completo do pai do melhor amigo do seu filho, e descobriu que ele era uma pessoa procurada pela justiça.
Os pais então se reuniram para assistir mais uma partida de futebol dos filhos, e foi neste dia que o policial aproveitou a oportunidade para conversar com o brasileiro. - “Quanto tempo você está morando nos Estados Unidos”? pergunta o policial. - “Dez anos”, responde o brasileiro, e conclui, “e no fim deste ano eu volto de vez para o Brasil”.
Esta era a resposta que o policial queria ouvir. Se o brasileiro já estava prestes a voltar para o Brasil por livre e espontânea vontade, ele então ficou com a consciência mais tranqüila, por não ter que entregá-lo à justiça. Mas todos nós sabemos que imigrante é assim mesmo, fica sempre dizendo que está voltando no próximo ano, e deixa para o próximo, e próximo, e aí vai vivendo duas vidas paralelas entre seu país e os Estados Unidos.
O brasileiro um dia foi buscar seu filho no treino e deu uma carona ao filho do policial, no caminho para casa, eles se deparam com uma blitz policial. Ao ser parado, o brasileiro já sabia o que poderia acontecer e, infelizmente, não foi diferente. Ao ver o tumulto, o policial se aproxima e vê que, naquele momento, o pai do melhor amigo do seu filho estava sendo preso. Com um detalhe... Seu filho estava dentro do carro.
O momento foi de desespero para ambos os lados, o filho do brasileiro não podia fazer nada para impedir que seu pai fosse preso, o policial e seu filho apenas ampararam o filho do brasileiro, levando-o para a casa da sua mãe, dando-lhe a triste notícia que os dias de imigrante do seu marido teriam acabado ali.
“Vamos deportar um pai de família, trabalhador e honesto... Um verdadeiro cidadão em qualquer país. É lamentável, pois sabemos que existem milhares de pessoas que não dão o valor necessário à sua cidadania. Menosprezando assim o “direito ao ter direitos”, afirmava triste o policial.