Lúcio Souza Versão para impressão
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Desde criança, Zé Ninguém usava drogas, brincava com armas e batia nas meninas. Já adolescente, começou a praticar roubos na vizinhança, partiu para a capital onde assassinou duas pessoas e foi preso. Alguns anos depois, em regime semi-aberto, consegue fugir e volta para a pequena cidade natal. Foi andando no meio de uma feira de rua - de uma pequena cidade do estado de Minas - que Zé Ninguém ficou sabendo que um cara fazia tráfico humano para os Estados Unidos. Assustado, ele só fazia ouvir, pois ele estava sendo procurado pela polícia por vários crimes, alguns deles, assassinato e roubo, além de fugitivo da justiça.
Falou com o cara que tinha dinheiro nos EUA, e se ele conseguisse chegar até lá, logo mandaria o pagamento. A intenção era dar um calote no coiote, pois ele não conhecia ninguém por lá. Mesmo assim, Zé Ninguém conseguiu a confiança do traficante, que fez com que o Zé entrasse nos Estados Unidos com nome diferente. Já nos primeiros dias no país, Zé Ninguém vivia meio que assustado com o excesso de confiança que as pessoas tinham nele, mesmo sem o conhecer direito. Na comunidade brasileira, ninguém o olhava atravessado, com desconfiança ou discriminação, pelo contrário, os outros brasileiros ajudaram ele a encontrar trabalho, lugar para morar e se divertir.
Aos poucos sentiu que ali era mesmo o seu lugar. Convivendo com boas pessoas percebeu estar transformando o Zé Ninguém - em ‘alguém’. Nas rodas de amigos, jamais falava do seu passado, apenas dizia ter tido uma péssima infância, da qual não gostava de relembrar. Com o pouco do inglês que aprendeu, conseguiu trabalho com um norte-americano cortando grama, pintando paredes e ainda fazendo bico como carpinteiro nos sábados. Com todo este trabalho, fazia uma boa grana por semana, onde ficou fácil pagar sua dívida com o coiote. Comprou um carro, andava com boas roupas e já morava sozinho.
Foi mandando dinheiro para o Brasil que ele encontrou uma menina, que com charme e meiguice conquistou seu coração, que agora tinha um ‘Zé Alguém’ como dono. Com ela se casou e os filhos foram chegando, depois de alguns anos. Mas acontece que um policial da época, também decide emigrar para este país. Chegando à comunidade, o policial encontra e reconhece o ex-zé ninguém. - “Hey, Fui eu quem te deu ordem de prisão nos anos 90s, lembra?”, disse o desertor da polícia mineira. Naquele momento, passou um filme na cabeça do Zé e, por alguns instantes, ele volta a ser aquele Zé Ninguém.
E disse: - “Lembro! Como eu poderia esquecer? Pois é, eu fugi da prisão, fugi de Minas, do Brasil e daquela vida... Não queira ser a pessoa que me vai fazer voltar a ser aquele Zé Ninguém dos anos 90s, será ruim para nós dois”! O policial poderia captar a mensagem como uma ameaça ou conselho. E respondeu: - “Vejo que você teve a chance de ser alguém na vida, e não desperdiçou, desejo que você faça alguma coisa pela sociedade, na qual você ainda tem uma dívida, vou fazer de conta que nunca te vi... E parabéns, você conseguiu ser Alguém”.
Obrigado pela atenção.