Breno da Mata Versão para impressão
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Certa vez me disseram a seguinte frase: “É preciso partir para se entender a razão de ficar”. Na ocasião a frase me pareceu fútil e não dei o devido valor. Mas com o passar dos anos, na medida que os acontecimentos foram cruzando o meu caminho, começo a compreender a força destas simples palavras. O partir, em questão, representa muito mais do que o significado puro e simples da palavra. Partir significa também perder algo que está ao nosso alcance todo o tempo, e por isso mesmo, desprezamos e negligenciamos a sua importância. Nestes últimos doze meses, a minha experiência pessoal de vida me direcionou a pensar em determinados aspectos de minha existência que antes não encontravam espaço na agitada vida na América. A necessidade de trabalhar em ritmo alucinante a cada dia, cega e cria um escudo protetor contra todas as coisas espirituais e sentimentais da vida. Sair desde ciclo vicioso requer uma ruptura brusca que muitas vezes não queremos ou não sabemos fazer. Recentemente, como muitos já sabem, fui vítima de um acidente de moto. Dentro de casa, recuperando-se de duas fraturas na espinha, que felizmente não chegaram a atingir meus movimentos, muitas coisas serão, para sempre, diferentes do que eram antes do acidente. A minha vida, tão agitada com o trabalho, se transformou de um dia para o outro numa situação de semi-dependência e pouquíssima atividade. Estas, limitando-se ao meu trajeto entre o quarto e o banheiro e, às vezes, até a cozinha. Tarefas simples como escovar os dentes e tomar banho, se transformaram num martírio e sacrifício antes impossível de se imaginar. Voltando à frase, que usei para abrir este editorial, a minha perda, a minha partida (de certa forma das atividades rotineiras) representaram um mudança que já era necessária há muitos anos. Infelizmente, no meu caso, foi preciso uma experiência traumática e dolorida para inverter o ciclo. Saber que a vida não é somente trabalho. Não devemos viver para trabalhar mas trabalhar para viver. Família e amigos devem ser colocados obrigatoriamente na mesma linha de importância das demais coisas da vida, se não acima delas. Muitos me disseram que a vida é muito preciosa para arriscar. Mas o que afinal significa arriscar a vida. Para mim, nós vivemos em constante risco. Se não desejarmos correr riscos, então deveríamos nos trancar dentro de nossas casas e apartamentos, virtualmente seguros pelos muros que nos cerca. Mas isso é viver? Deixar de fazer o que gostamos, aproveitar a vida da forma que nos dá prazer e felicidade porque, eventualmente, correm-se riscos e isso, a meu ver não representa o significado da palavra viver. Espero que a infinidade de tempo que transcorre para os desavisados ou os ingênuos, que ainda imaginam o calor do outro como algo imprescindível na caminhada rumo à “entrada principal”, da grande sala encantada da felicidade. Antes que me esqueça, agradeço a todas as pessoas que de uma forma ou de outra externaram sua preocupação com minha saúde. A todos, muito obrigado! Breno da Mata Editor/Diretor