Breno da Mata Versão para impressão
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O mundo é cheio de contradições. Vivemos em uma época de interesses e escolhas desencontradas. Ou melhor dizendo, de encontro a nossos próprios interesses.
O mundo assiste e reage à crise no Egito à luz de seus mais profundos e mesquinhos objetivos. Enquanto o povo egípcio vai às ruas lutar contra um regime ditatorial de 30 anos, Brasil e Estados Unidos pouco ou nada fazem para ajudar a promover a tão falada democracia.
As frágeis ameaças de Hosni Mubarak, de que empregará
repressão violenta em nome do bem-estar dos egípcios – quando já se sabe que a sua própria polícia e suas milícias são responsáveis pelos ataques mais violentos dos últimos cinco dias – só geraram ainda mais fúria entre os manifestantes, vítimas de três décadas de ditadura, várias vezes muito violenta.
O Brasil reage com cautela. Limita-se a pedir bom senso do presidente/ditador Mubarak. O motivo de pisar em ovos se explica: o Brasil é o maior exportador de carne bovina, frango e açúcar para oEgito e, só com esses três itens da pauta comercial, atinge US$ 800 milhões por ano.
Os EUA não ficam atrás no cuidado ao tratar da crise. O Egito é hoje o seu maior aliado no mundo árabe e também um contentor dos religiosos extremistas. Não importa se o povo vive uma ditadura. Não importa se a voz popular é calada à força.
Ter a maior rede de televisão muçulmana, a Al Hijrah, fechada e as comunicações de celular e internet interrompidas para abafar os manifestantes, parece não incomodar o gigante yankee, que tanto cobra dos demais países a democracia.
Por muito menos que isso, Cuba vive um embargo econômico de 48 anos, imposto pelos EUA. Washington promove a democracia no Iraque, mas faz acordo com ditadores e assiste a genocídios em Ruanda.
A Casa Branca já perdeu o Irã (de origem persa) há tempos e não pode correr o risco de perder agora o apoio do Egito e da Jordânia. Barack Obama parece incomodado com a situação do Egito e sua obrigação de apoiar o presidente.
A liderança moral dos EUA cessa de existir quando há confronto declarado entre o mundo árabe e Israel.