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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Xadrez, preto no branco

04/15/2008 05:18:09 PM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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Peões.
São, de longe, os mais numerosos. Estão na linha de frente e isso não é reconfortante. Ao contrário, o estrategista não pensa duas vezes antes de lançá-los adiante, mesmo que em poucos movimentos encontrem a morte inglória. Vivos, servem de escudo. Ou moeda de troca. A parca mobilidade e a posição vulnerável são superadas em uma única e improvável alternativa: trilhar todo o tabuleiro incólume e, suprema glória!, tornar-se uma peça mais nobre, quem sabe até uma rainha. No movimento seguinte esquecerá que um dia foi peão.

Cavalos.
Nasceram para fazer o que deles se espera: passar por cima de tudo e de todos – movimento físico capaz de abrigar em si a galopante metáfora. São úteis na defesa e no ataque. Mas há quem não consiga dominá-los. Montar boas estratégias em cima de cavalos é considerado jogo elevado, superior. Basta reparar que as crianças (e os principiantes em geral) mais se divertem com o deslocamento em “L” do que tiram proveito dele. Quando descobrem sua força, vêem-se fascinados. Perder os cavalos é ficar a pé no tabuleiro.

Bispos.
Movimentam-se segundo os princípios divinos: reto, apenas por vias tortas. Encontram saída mesmo quando alguma peça está postada bem à sua frente, ou cerceando o movimento lateral. A força dos bispos nasce do poder deste estranho viés. Se pregam a palavra de um deus, nem assim deixam de servir ao seu rei, negro ou branco. E, por ele, matam ou entregam suas vidas em sacrifício. Não à toa estão ao lado da nobreza quando o jogo principia: a fé e a política parecem andar sempre juntas.

Torres.
Obras concretas da engenharia: sabem tudo de ângulo reto. Nada tira uma torre de seu trilho, não importa o tamanho do deslocamento. Estão nas extremidades do tabuleiro não por acaso: dão a ele ares de fortificação. Nem no mais moderno e inusitado movimento do xadrez, o roque, elas abandonam sua bitolada razão de ser, impondo ao monarca um corrupio à sua volta. Não costumam cair no princípio do combate, servindo de linha de defesa e, sobre um adversário debilitado, uma espécie de avanço imobiliário especulativo.

Rainha.
La donna è móbile qual piuma al vento. No jogo em que a capacidade de deslocamento dá a idéia do poder de cada peça, a rainha é mais do que tudo uma soberana. Exceção feita ao salto do cavalo, nada limita a articulação da esposa do rei. Luta pela integridade de seus domínios e se revela uma guerreira talentosa e fria. Quando declina, expõe ainda mais a debilidade do rei, que estará disposto a se casar com o primeiro peão (peã?) que conseguir atravessar o tabuleiro.

Rei.
Ah, o rei... Uns dirão que é uma peça de movimentação limitada pelas cruéis amarras do bom senso, da diplomacia e da moderação. Outros que não passa de um egocêntrico mimado e insensível, capaz de sacrificar a tudo e a todos para manter ou ampliar os seus domínios. Até há quem o julgue um covarde, preocupado apenas em não morrer. Porém, ruim com ele, pior sem ele. Afinal, quem disse que do outro lado da disputa existe um presidente ou um primeiro-ministro? Existe? Ah, pois é...

Rubem Penz

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