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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Voz de comando

02/23/2011 01:14:49 PM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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A voz que indica os caminhos nos
aparelhos de GPS, acessório cada
vez mais presente nos automóveis, é
predominantemente feminina. Quer dizer,
há uma mulher dizendo a quem está ao
volante para onde deve seguir. Também
é uma mulher que indica os vôos de partida
e chegada nos aeroportos e, nas lojas,
chama pelos pais de uma criança perdida.

Isto não é coincidência. Uma das razões
para que seja assim passa pela suavidade
– a tonalidade das mulheres é mais agradável.
Outra, e talvez mais importante, é que
fomos, desde a infância, acostumados a
ser mandados por mulheres. E, pensando
bem, vozes masculinas no GPS podem
gerar muitos problemas.

Por exemplo, uma moça independente,
solteiríssima, cabeça feita, senhora de si desde
os bancos universitários coloca uma voz de
homem no GPS do carro. Ele, imediatamente,
começa a lhe dar vozes de comando: vire ali,
volte acolá, apanhe o caminho da esquerda.

No primeiro trajeto é divertido. No terceiro
dia, tolerável. Porém, não dou duas semanas
para ela trocar por uma voz de mulher só
para livrar-se daquele homem insuportável
que pensa que pode mandar nela só porque
acha que conhece o caminho. Isso sem falar no
caso de, acidentalmente, ocorrer alguma falha
na indicação. Se for homem, para ela, além de
inesquecível, isso será imperdoável, ainda mais
se coincidir com a TPM.

Para quem considera meu exemplo tendencioso,
vamos dar um giro de cento e oitenta
graus na motorista: ela agora é uma mulher de
seus trinta e poucos, casada, mãe em tempo
integral e dona de casa. Quando o GPS homem
passa a distribuir suas ordens, algo no subconsciente
começa a perturbar – não basta o marido
para decidir os rumos de suas despesas, agora
vem outro homem para mandar nela dentro do
carro. Pior mesmo só se ela chegar à conclusão
de que está com dois homens lhe torrando a
paciência, e sem nenhum para lhe pegar no colo,
deitar-lhe no solo e lhe fazer mulher (é delicioso
citar Wando). Como é mais complicado trocar o
marido, dará um jeito de alterar a voz do GPS.

Mas, digamos que o fabricante do GPS
identifique no aparente autoritarismo chauvinista
embutido no tom mais grave a raiz do
problema, e resolva dotar o sistema com um
locutor pleno de delicadeza, educação e tato.
Algo que beire à afetação. Assim, seus comandos
começariam com infalíveis pedidos de
favor ou corretíssimas solicitações de licença.

E sempre terminariam pontuados pela gratidão.
Tipo: “Por obséquio, seria adequado dobrar à
esquerda na próxima esquina. Muito obrigado.”
Ou: “Por favor, utilize se possível o próximo
desvio para acessar a via lateral. Agradecido.”
Desastre. Para umas, estouraria a paciência pelo
excesso de cerimônia. Outras considerariam,
simplesmente, deboche.

Mas o GPS com voz masculina não é preterido
apenas por mulheres. Lógico! Homem
que é homem sabe o caminho melhor do
que qualquer programador de meia tigela. E,
por sua natureza competitiva, desacataria os
comandos de outro homem só para provar
que conhece uma rota alternativa mais curta,
menos movimentada, duas vezes mais rápida.

Melhor: deixaria o GPS desligado sempre que
soubesse mais ou menos onde fica o endereço.
Isto é, absolutamente o tempo inteiro. Ou
alguém já viu um homem em sã consciência
assumir que está perdido?

Quando o GPS com voz masculina ditar
ordens em um carro com um casal, imagino
que teremos briga na certa, conseqüência
direta das reações naturais de macho alfa:
– Benhê, diminui a velocidade que ele disse
para entrarmos na próxima avenida.

– Se acha que ele sabe mais, casa com ele, então...
Pois é... Por uma voz feminina, as mulheres compreendem
as indicações de rota como sendo
“dicas” da amiga eletrônica. E para os homens, são
“pedidos” de uma mulher digital muito simpática
que, inclusive, parece estar lhe dando mole. Logo,
não custa atender. Tudo muito mais suave e palatável.
Eu, pessoalmente, jamais ouvi um destes
aparelhos com voz grossa.

Só para não perder a oportunidade, outra
hipótese é ser o GPS com voz de mulher a mera
confirmação da minha tese sobre as relações
heterossexuais. Diz ela que o casamento é a
união entre duas pessoas: Uma é a que manda;
a outra é marido.

Rubem Penz

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