Rubem Penz Versão para impressão
Enviar para um amigo
|
Quando, ainda crianças, não conseguíamos acompanhar a velocidade de algum jogo ou brincadeira, fosse por cansaço ou inabilidade, recorríamos ao pedido de tempo. Na idade adulta, a expressão “dar um tempo” transferiu para o ambiente afetivo o mesmíssimo caráter. Hoje, alcançada a maturidade e cercados de cobranças, tenho lido nos olhos de alguns amigos, consumidos por uma rotina acelerada demais, um outro e desesperado pedido de tempo sem coragem de ser enunciado.
Todos nos queixamos da falta de tempo. Porém, de que tempo nos ressentimos afinal? Será que é aquele mesmo que enunciávamos no brinquedo de pegar, bem na hora em que a atividade perdia a graça, por nos deixar extenuados? Desconfio ser ele muito parecido. O problema é que, em alguns casos, se o pedido não for feito, e atendido, algo mais grave do que a graça pode ser perdido: a saúde.
Fica a dúvida. Pedir um tempo para o quê? Para quem? Deixar de trabalhar não é uma boa idéia. Relaxar com as demandas de casa também pode ser perigoso. Abandonar a vida social, então, é o pior remédio. As férias, quando conseguimos tirá-las, nunca mais são as mesmas do tempo de juventude – sem filhos, sem responsabilidade e completamente sem-vergonha! O bicho está pegando e ninguém consegue gritar: Tempo!
Recordei, então, dos meus tempos de Escola Superior de Educação Física: para relaxar os músculos flexores, trabalhemos os extensores. Em outras palavras, se é impossível parar as atividades, intercale com algumas de outra natureza, completamente diferente. Para os muito cerebrais, um pouco de esforço físico. Para aqueles que correm sem parar, leitura ou yoga. Para quem está constantemente cercado de pessoas, o isolamento de uma horta.
Parece mais fácil na teoria, não é? Mas, pensando bem, lá na infância, quando pedíamos um tempo, isso não significava que o brinquedo estava ruim, ou que queríamos parar de vez. Bastava respirar um pouco. Essa é a proposta do tempo no sentido de pausa: a oportunidade de respirar um pouco. Visto assim, qualquer um pode conseguir.
Se estás cansado demais, peça um tempo internamente e atenda-se. Não deixe o coração e os nervos tomarem essa iniciativa. Faça, também, com que todos que te rodeiam respeitem esse tempo. Lembrando que, num grupo de crianças livre de mediação, esse apelo funcionava, não seria hoje que ele deixaria de ser eficaz. Como prova, é assim que escrevo crônicas.