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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Telhado de vidro

12/09/2009 10:19:30 AM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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Dos tantos assuntos que nunca saem de nossa cabeça, um pode estar contido de forma literal e figurada: os cabelos. Afinal, eles são uma preocupação constante do nascimento à morte (nossa ou deles). Cabelos crescem e fazem crescer a economia – mais empregos na indústria, comércio e serviços. Também chegam a contar parte da nossa história.
O tema capilar trança comentários desde o primeiro instante após o parto. Ao olhar para o recém-nascido, surgem as primeiras teorias: se o cabelo é escuro, vai clarear. Se é claro, tende a escurecer. Os primeiros cabelos, segundo a sabedoria popular, caem todos para, então, cederem lugar aos definitivos (depreendo que existam, assim, “cabelos de leite”). Em muitos casos, os nenês nascem carequinhas. Então, a infalível piada que todo calvo escuta: é a cara do papai!

Na infância, recebemos a lição inaugural em qualquer escolinha: puxar os cabelos dói bastante. Logo, é muito útil. Ainda sobre creches, alguém faz uma pálida idéia de onde vão parar as centenas de “chuquinhas” perdidas por todas as meninas durante os anos pré-escolares? Para mim, um mistério... A relação entre o tipo de cabelo do pimpolho e sua personalidade é outro assunto que merece análise mais detida. Na minha opinião, entre os guris, os crespos são, em média, mais peraltas do que os lisos. No caso das meninas, divido-as em dois grupos: aquelas que mantêm os cabelos presos e as que nunca conseguem isto por mais de quinze minutos. No primeiro time, estão as meigas e compenetradas. No segundo, as arteiras.

Os cabelos ganham contornos de manifesto durante a juventude. Aparecem raspados, escabelados, longos, pintados, sujos, picotados, parafinados... O modo de tratar as madeixas explica boa parte da fase em que o adolescente se encontra. Seja qual o estilo adotado, numa coisa todos se assemelham: são oleosos! Disso, nossos pobres patinhos-feios não têm culpa – é o resultado dos hormônios em fúria. De tão marcantes para a juventude, os cabelos são a primeira coisa que reparamos olhando fotos antigas, antes mesmo das roupas. Para compormos figurinos de época, basta começar por um bom cabeleireiro.

Por fim, ao amadurecermos, pensando estar livres da ditadura capilar, os cabelos voltam ao centro das atenções. Eles que foram (bem) usados como arma feminina de sedução, são os que denunciam a chegada de uma certa experiência na mulher. Há quem diga que a morte antecipada de uma dama se dá diante do espelho, ao vislumbrar o primeiro fio branco. Um exagero... Mesmo assim, um dos melhores negócios do mundo é a fabricação de tinturas para cabelo.No caso dos homens, com o passar do tempo, os cabelos tendem a ser uma preocupação crescente – melhor dizendo, decrescente. Depois dos trinta anos, a incontornável queda atormenta um grande número de jovens senhores. Uma bobagem: em oposição às mulheres, marcas como a calvície e frontes grisalhas vêm acompanhadas de mais charme e beleza. Ok: Estou advogando em causa própria, é claro. Afinal, não seria exagero dizer que, no terreno capilar, já tenho um certo telhado de vidro!

Rubem Penz

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