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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Soterrados

03/16/2011 09:39:55 AM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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Estamos bien, los 33
Bilhete enviado pelos mineiros Chilenos



Os últimos tempos têm sido pródigos em empilhar catástrofes: deslizamentos, terremotos, tempestades, tsunamis, enxurradas, desmoronamentos etc. Também, especialmente no Brasil, tragédias cotidianas como os acidentes em estradas fazendo muitas vítimas, em grande parte, fatais. A violência, a tirania e as guerras se acumulam sobre nossas cabeças. Nas (in)consciências, domina o pó dos entorpecentes. De alguma forma, nos sentimos, todos, soterrados.

Por isso, aqui do fundo do poço escuro e imobilizador, parte meu bilhete: “Estamos bien, nossotros...”.

Vivos, apesar das toneladas de lixo que separam nosso abrigo íntimo da mãe natureza. Entulho responsável pela contaminação das nascentes e pela poluição do ar. Escombro que destrói o entorno, violando o bom senso, desfigurando as encostas, alterando a ordem natural;
Saudáveis, mesmo que paire tantas dúvidas sobre os alimentos que ingerimos e os hábitos que adquirimos. Céticos quanto às chances no longo prazo para nossos anticorpos na escalada bacteriológica. Dependentes dos fármacos e fragilizados diante das ameaças ao organismo;

Razoavelmente seguros, mas cada vez mais isolados dentro do solitário refúgio da desconfiança – prisão sem grades. Paralisados pela ousadia dos chacais e por ordem de quem deveria nos proteger: Não reaja! E não reagimos;

Solidários em alguma medida, caso contrário nada mais faria sentido, nem mesmo a sobrevida dos dilacerados. Dividindo um pouco de consolo, de lágrimas, de carinho. Oferecendo e tomando emprestadas poucas migalhas de luz;

Insurgentes contra os que tomaram as decisões que nos trouxeram para cá. Mas igualmente revoltados contra nós mesmos, surdos que fomos para os alertas que partiram da razão e do sentimento;

Organizados diante do caos, metódicos frente ao inesperado, capazes de improvisar antes mesmo de conhecer o próximo acorde da melodia – ainda que o conjunto soe meio desafinado para os mais puristas;
Inacreditavelmente esperançosos, estupidamente humorados, inevitavelmente famintos, especialmente amorosos.
Estamos muito mal, mas “estamos bien”:

Agarramo-nos com a força insondável do instinto nos mínimos ruídos que partem da superfície. Cremos que algo ou alguém de fora deste buraco tenha mínimo interesse em seguir com as missões de resgate. Ou, quem sabe, que surja aqui de dentro um meio de suplantar a pilha de dor.

O tempo não está do nosso lado, minando gradativamente a resistência, fazendo novas vítimas, enlouquecendo até mesmo aqueles mais sensatos. Vemos escassear as reservas de fé. E, a cada dia, as manchetes pelo mundo nos atiram mais para baixo.

“Estamos bien, nossotros, los sobrevivientes.” Mesmo que soterrados pelas notícias de violência e de mortes evitáveis.

Rubem Penz

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