Danbury, CT - Monday, May 21 2012
Home | Colunista | Rubem Penz

Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Sensibilidade

02/15/2011 08:59:21 PM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

  Versão para impressão
  Enviar para um amigo

Paira uma lenda de serem os homens uns
insensíveis, que apenas as mulheres guardam
todos os detalhes, mas não é verdade.

Não mesmo. Ou não mais. Orgulho-me
em dizer, por exemplo, que lembro em pormenores
o nosso primeiro encontro.

A faísca domeu olhar contigo nos braços era tão visível e
intensa e desejosa e promissora que espelhavase
na face dos demais, daqueles poucos que
nos viram sair juntos. Alguns invejaram nosso
encontro.

Em outros brotou aquela melancolia
vinda da apreciação de sua rara estampa – dali
para adiante minha, de ninguém mais.
Mas nada aconteceu na primeira noite.

Já não me consome a urgência da juventude,
uma sem cerimônia para a entrega imediata ao
prazer. Uma vertigem, uma embriaguez desenfreada
e sedenta. Sofreguidão. Engolir-se tanto e tão rápido
que, em igual velocidade, há o fastio.

Todas, assim, logo soam vazias. Homens
experientes permitem que o tempo de espera
acresça desejo. E nós estávamos entregues
um ao outro apenas na manhã seguinte. Uma
longa e ensolarada manhã de sábado. Antes
do almoço, para abrir o apetite. Você dividindo
meus lábios com o óleo de oliva que escorreu
no dedo enquanto temperava a salada.

Neste ritmo, que respeita o anseio e as pausas,
seguiu nossa relação. Sem hora marcada,
sem dependência – vício seria a melhor palavra,
e fugimos dela com medo da verdade.

Ora escutando um jazz, ora em silêncio. Às vezes
cedo, outras antes que parecesse tarde demais.
Sempre lentamente, jamais começando no
momento em que houvesse pressa para nos
deixarmos.

Para espanto dos que me conheceram
em outro momento da vida, estivemos
juntos por longo tempo. Inimaginável tempo.

Ah, o que faz de diferença um pouco de amadurecimento
em um homem... Eu mesmo cheguei
a estranhar, nunca permanecera tanto.

Eterno enquanto dure. Vinícius de
Moraes. Poeta que não foi de uma – foi de
todas! Ensinou que tudo tem seu tempo, o
esgotamento é inevitável.

Agora, frente a frente, desconsiderando os conselhos do
bom malandro, abro meu coração para confissões
que nunca devemos fazer: muitas
vezes deixei de lhe procurar justamente para
retardar o fim. Conscientemente.

Talvez na mais avessa das provas de afeição.
E fui infiel. Pior: na rua, estive entregue aos excessos
que tanto e mais sonegava em casa.

Canalhice total. Não me odeie. Ódio, devemos
ter do infalível fim. Sejamos sinceros, já não
há trocas possíveis. Entre nós, restou o gelo.
Cumpriu-se o ciclo. Cada um, a seu modo,
entrará em processo de reciclagem.

Meu futuro você já sabe – sempre sabem.
Outras, tão novas quanto você foi um dia,
brilham e me sorriem enquanto passo. Em
breve, depois de lhe ver partir, ou mesmo
antes, terei companhia. Com bastante
dinheiro é fácil, dirá.

Sou obrigado a concordar. Mas serão só seus,
exclusivamente seus, os tantos momentos em
que estivemos juntos. Adeus. Até nunca mais.
Escorre a última gota feito lágrima tardia
sobre a pedra. Goodbye minha querida
garrafa de uísque 18 anos.

Rubem Penz

Comentários
Carregando...
Edição Impressa
Assine nossa Newsletter
Entre com seu e-mail abaixo para receber nossa newsletter
Publicidade

Comunidade News | Expediente | Fale Conosco | Política de Privacidade | Login

© Comunidade News LLC.

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Comunidade News LLC. <a href="http://marcusnunes.com" title="Marcus Nunes">Marcus Nunes</a> <a href="http://jovemempreendedor.com" title="Jovem Empreendedor">Jovem Empreendedor</a> <a href="http://56coisas.com" title="Listar metas">Listar metas</a>
Connecticut - New York - New Jersey
  Capa | Videos | Expediente | Fale Conosco
Buscar: