Rubem Penz Versão para impressão
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Era um apartamento muito engraçado.
Não tinha teto: à noite, o que tinha era
um tablado de dança flamenca. Única
explicação para tanto salto batendo sobre
a cabeça. Mas não parava por aí, não.
De manhã, caso resolvesse recuperar o sono
perdido sob influência andaluz, o teto
virava algo parecido com uma pista de
boliche. Há quem tenha compulsão em
mudar toda a mobília de lugar, agravada
pela incapacidade de elevar os móveis do
chão. Logo, a expressão “uma manhã que se
arrasta” ganhava outros contornos.
Ninguém podia entrar nele, não. Ao
menos sem antes passar por um gradeado
de quase três metros de altura à beira
da calçada. Ali, um porteiro eletrônico
com aquele ruído de linha aberta, dava a
impressão de que alguém mais escutava a
conversa.
Depois, outra barreira: a porta doprédio,
sempre trancada a sete chaves, com
ordem expressa de assim permanecer a
qualquer horário. Por fim, mais uma grade,
agora diante da porta do apê. Qualquer
semelhança com presídios e celas é mera
coincidência com nossa (in)segurança
pública...
Ninguém podia dormir na rede, porque
no apartamento não tinha paredes. O que
ele tinha, com boa vontade, eram estruturas
divisórias. Pendurar quadros já era uma
temeridade, que dirá uma rede...
Qualquer broca de maior calibre arrombaria
a parede do vizinho. Essa, aliás, era a explicação para
não ser necessário som na TV, caso ao lado
estivessem ligados no mesmo programa.
Também a resposta para sabermos há
quantas andava o relacionamento afetivo
uns dos outros: primeiro a DR, depois a
briga e, mais tarde, a reconciliação. Às vezes,
uma segunda reconciliação.
Ninguém podia fazer pipi sem que
o ruído circulasse pelo fosso de luz,
anunciando para todos no prédio o volume
do jato. Essa era a melhor notícia. Pior,
mesmo, eram os momentos de indisposição
intestinal. Ou quando algum acidente de
percurso exigia que chamassem o Hugo
– eufemismo simpático para o ato de
regurgitar em abundante jorro.
A rádio fosso de luz, recuperando-se dos ruídos
fisiológicos, transmitia os hits de chuveiro
de todos os moradores. Também a terceira
reconciliação pós DR, agora sobre a pia ou
dentro do box.
Era decorado com humilde esmero: na
sala, um sofá de dois lugares herdado de
uma tia, caixa de maçã apoiando a TV de
14’ e mesa dobrável com quatro cadeiras.
No quarto, o colchão repousava direto no
carpete, defronte ao armário de duas portas.
Na cozinha, a infalível geladeira Frigidaire
branca que um dia fora da família.
E era pago com sofrido esmero – quase
a metade do salário sumia entre aluguel e
condomínio. O restante tinha finalidade
bem mais nobre: cerveja para receber
os amigos e vinho para impressionar as
meninas. Ah, claro: comida suficiente para
se manter vivo.
Mas era curtido com muito esmero!
Todos aqueles que tiveram apartamentos
parecidos com esse, ou mesmo um
JK, descobriram a dor e a delícia de
ser independente. A delícia vinha do
despojamento juvenil, algo tão fora de
moda. E a dor também, é claro. Um banho
meio frio que o diga.
*Crônica inspirada em A casa, de Vinícius
de Moraes.