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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Resgatando amélia

04/13/2010 08:26:12 PM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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Tudo que você vê, você quer
Ai meu Deus, que saudade de Amélia
Aquilo sim é que era mulher
Ataulfo Alves & Mário Lago


Se há algum consenso, este é de que Amélia, a tal mulher de verdade eternizada pelo samba de Mário Lago e Ataulfo Alves, não existe mais. Ela, dependente, conformada e sem vaidade, hoje foi substituída por outra, super atuante, realizadora e, ainda assim ‒ ou até por isso ‒, vaidosa. Porém, mesmo correndo o risco de ser chamado de machista, considero a ode, à época, até justa, pois estava atrelada ao paralelo com um terceiro tipo de mulher: megera insensível, fútil e mimada. E as virtudes de Amélia, reconhecendo que virtude não seja o termo mais adequado, nasciam tão somente da comparação entre as duas.

Mas, se morreu Amélia (e acho que sim), teria desaparecido também sua imagem invertida, motivo dos ais de saudade? Lendo os versos com atenção, as melancólicas queixas do homem com relação à nova companheira bem que podem ter permanecido dentro de casa, apenas se deslocando para os filhos. E as vítimas da tirania que fez nascer o lamento de Mário Lago agora são os pais ‒ tanto compreendidos como o casal, quanto, separadamente, pai e mãe.

Mesmo parecendo, esta tese não é de todo estapafúrdia. Afinal, é fácil identificar tais queixas entre nossos amigos e conhecidos: “Não aguento mais meus filhos! Nunca vi fazerem tantas exigências. Parecem não ter consciência da realidade à sua volta, sequer de nossa condição financeira. Pensam apenas em luxo, conforto e riqueza ‒ tudo aquilo que veem nas vitrines do shopping, querem. Assim não dá!” Por fim, não seria surpresa se algum pai verbalizasse em tom de desabafo: “Ai meu Deus, que saudade da Amélia!”

Calma: não creio que seja preciso exagerar, esperando que nossas crianças e jovens passem fome ao nosso lado achando bonito não ter o que comer. Ou estejam despidos de toda vaidade, e totalmente conformados: “Meu pai, o que se há de fazer...”. Porém, vários relatos de homens e mulheres vencedores revelam privações significativas em seus anos de formação. E muitas delas foram determinantes no momento de forjar o espírito para as futuras conquistas. Um prato vazio à mesa, quando nos serve de metáfora, também ensina a lutar pelo que se quer. E a dar valor para o que se tem.

A eficácia ‒ que novidade! ‒ deve estar no equilíbrio. Seria um erro brutal desejar filhos “Amélias”, mas nem por isso devemos nos submeter à tirania de quem tudo tem e tudo quer. As escolhas continuam sendo nossas, a educação sempre cabe aos pais. Com sorte, com afinco e perseverança, ganharemos a oportunidade de olhar para nossos herdeiros e dizer: isso sim é que é homem, isso sim é que é mulher de verdade!

PS.: Há algo que o Mário Lago não explicou: teria o homem deixado da Amélia, ou a Amélia dele? Na resposta, pode estar contida a data do óbito deste tipo de mulher... Arrisquem seus palpites!

Rubem Penz

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