Rubem Penz Versão para impressão
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João tirou o nome de Teresa que tirou Raimundo que tirou Maria que tirou Joaquim que tirou Lili que tirou a si mesma, mas ficou quieta.
João, que amava Teresa, enlouqueceu com o baixo valor estipulado para a compra do presente de Natal no amigo secreto. Nada que estivesse à altura de Teresa poderia custar tão pouco. Precisava caprichar, pois uma das renas do Papai Noel lhe assoprara que ela havia rompido com o namorado. Sua oportunidade!
Teresa, que amava o grisalho Raimundo – e por ele deixara o namorado –, nutria a esperança de enfim se declarar. Ainda não havia pensado no presente, pois parecia difícil agradar um senhor tão refinado. Mas o cartão já estava comprado desde o começo de dezembro, antes mesmo de ela terminar com o outro. Escondido no envelope, um coração brilhava aflito em purpurina.
Raimundo, que mergulhava todos os dias no decote de Maria, comprou-lhe um sutiã rendado. Vermelho. Ensaiava todos os dias no espelho de casa sua proposta: fazerem um Papai Noel e Mamãe Noel no almoxarifado, sobre a mesa de empacotamento. Seria a primeira loucura de sua vida, e a oportunidade de usar a toquinha de Noel que caíra no esquecimento desde que os filhos cresceram.
Já Maria, odiava Joaquim. Odiava, odiava, odiava! Que negócio era aquele de ficar dando uma de gostoso para cima de todo o departamento? Quem ele pensava que era: o último pastel de Santa Clara do balcão da padaria? Mas o dia dele estava por chegar! Ela lhe daria um chinelo de Natal. Aquele chinelão! 44! Ai: seria no homem tudo proporcional, mesmo?
Joaquim, por sua vez, nunca compreendera Lili. A moça não ria de suas piadas maliciosas, não ligava aos galanteios, nunca brigou quando recebeu tapinhas na bunda (olhava com cara de paisagem), tampouco reagiu quando ele propôs um ménage à trois junto com Maria. Nessa oportunidade, Maria chegou às vias de fato lhe atirando um grampeador: isso sim, incontestável prova de amor.
J. Pinto Fernandes, que não tinha entrado na história, também retirou seu próprio nome no amigo secreto de Natal. Aliás, fora o primeiro e, secretamente, sabia que o sorteio daria errado. Como ninguém falou nada, esperou com muita curiosidade a abertura dos presentes. Quando Lili disse que tirara seu próprio nome, recebendo a vaia dos colegas, o homem saiu em sua defesa, confessando a coincidência. Nunca haviam conversado – amor à primeira palavra.
Todos os demais ficaram bêbados.
*Crônica livre e faceiramente baseada em Carlos Drummond de Andrade