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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Os ponteiros do calendário*

12/25/2007 10:39:47 PM
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Rubem Penz

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Por mais estranho que pareça, os minutos que antecedem nossa saída de casa pela manhã, seja para o trabalho ou para o estudo, passam muito rápido. Para obedecer a essa regra, pouco importa se formos sair às sete, sete e meia ou mesmo em folgadas nove horas – são os últimos dez minutos os que valem uma correria. E não basta levantar-se mais cedo, pois a calma e a tranqüilidade previdentes se encarregarão de levar tudo para a última hora. O equivalente parece acontecer em dezembro: apertados pela saída do ano, os últimos dias se atropelam muito velozes e lotados do que fazer.

Quando acordamos em janeiro, o ano novo está inteiro, enorme em nossa frente. Para que pressa? É muito justo fazer uma preguicinha na cama, planejar em paz e com o travesseiro o período que se inicia, ou mesmo dormir mais um pouco, já que é tão cedo. Pensamos todos: em fevereiro, ou depois do Carnaval, pulamos da cama e encaramos o ano já correndo solto! Igual, nada costuma se resolver nos primeiros meses.

De pé, um banho revigorante nas águas de março – fechando o verão – é a melhor pedida. Ele apaga de vez todos os resquícios do período que se encerrou e desperta o ânimo. Abril é um bom mês para fazer escolhas, começando diante do guarda-roupa. O apetite nasce em maio, enquanto preparamos o café e vestimos a mesa. Ela posta, é sentar e apreciar um desjejum nutritivo e saboroso até o final de junho.

Julho é o período ideal para se recostar, cruzar as pernas e abrir o jornal, sempre começando pelo esporte. Uma folheada na agenda cultural e, para agosto, o desgosto da seção policial e da editoria de política. Com tanta má notícia, é melhor reservar setembro para dar uma volta no pátio: olhar as flores que desabrocharam, aguar as folhagens e respirar ares de primavera. Isso pode durar até o mês seguinte, especialmente se temos um cão para brincar. É claro que qualquer um já consultou o calendário nessas alturas - nossa, já é outubro!

Se der o azar de o telefone tocar em novembro, o ano estará comprometido: cai para dezembro o escovar dos dentes, a revisão da lista de tarefas, os últimos ajustes no vestuário e “onde estão meus óculos?”. Aquela sensação estranha de que ainda agora era dia cinco chega junto com a véspera de Natal, quando nunca estamos prontos. Que horror, tudo parece ter ficado para dezembro! Por fim, partimos porta afora sem olhar mais para os ponteiros do calendário ou mesmo para a agenda, que denunciará, entre outras coisas, a nossa cama desfeita.


* Crônica extraída do livro O Y da Questão. Motivo: breves férias.

Rubem Penz

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