Rubem Penz Versão para impressão
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A pizza da moda é metade politicamente correta, metade quotas de inclusão. Sobre a massa, todos devem estar representados, sob pena de o cozinheiro ser taxado de preconceituoso, sexista, racista ou qualquer outro termo terminantemente discriminatório. Há uma ditadura de conduta pronta para condenar quem escolha compor determinado grupo com um ou outro, acusando-o de excluir os demais. Como se a exclusão não fosse inerente a qualquer ato de escolha, em todo critério adotado.
Os norte-americanos, mestres da cozinha padronizada – garantia de lucro em escala –, já se deram conta disso faz muito tempo. Programas infantis, para jovens e seriados adultos, por exemplo, capricham na receita: há sempre uma loira, um oriental, uma latina, um gay, um ruivo, um nerd, um forte, uma gorda, um negro. Há crespos e calvos; altos e nanicos; ingênuos e sacanas; ricos e pobres; urbanos e caipiras. Um mundo de ficção que reflita com esmero de cheff a diversidade humana, tudo em nome da audiência.
Os roteiristas cuidam, também, de fugir dos execráveis estereótipos: é melhor que a loira seja inteligente; o negro, chefe; o latino, honesto; o gay, sério; o idoso, disposto, e assim por diante. Jamais insistir em rótulos depreciativos! A patrulha estará pronta para denunciar a perseguição e o reforço dos preconceitos. Assim, o vilão ideal deverá ser homem, heterossexual, claro de cabelos e de pele, nem jovem nem velho, oriundo da classe média (para cima), escolarizado, gozando de plenas faculdades físicas e mentais... Algo parecido comigo, por exemplo. Já ando me esquivando pelas ruas.
Esse desabafo tem um motivo. Associação Gaúcha de Escritores (AGEs) empossou sua nova diretoria, da qual tenho a honra de fazer parte. Felizes da vida com a oportunidade de colocarmos nossos esforços individuais a serviço da coletividade – é para isso que as pessoas de bem assumem tais encargos –, posamos para a foto e mandamos a notícia aos formadores de opinião, imprensa etc. Para a nossa surpresa, poucos minutos bastaram para a primeira crítica: entre nós sete – presidente, vices e diretores –, há uma só mulher. Deveríamos ter convocado para o registro de imagem o conselho eleito na mesma data: nele, elas estão com superioridade de quatro para um. Aí, pode.
Acreditem: mais do que culpada, a chapa foi acusada de dolo. Para aqueles que só têm no cardápio a tal pizza metade politicamente correta, meia quotas de inclusão, outros arranjos são propositalmente preconceituosos. Nosso presidente não compôs com a maioria de homens: sonegou às mulheres a participação. Em nome da igualdade, a liberdade é banida do cardápio. Aguardamos as manifestações de outras minorias para qualquer momento. Pois, pior do que ter uma só mulher, entre nós não há portadores de deficiências físicas, índios... E os japoneses? Esquecemos dos japoneses!