Rubem Penz Versão para impressão
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Em 2008 noticiei em única mão o término do contrato de concessão dos coelhos para serem os animais símbolos da Páscoa, além da consequente abertura de Edital para nova concorrência. Confira em www.comunidadenews.com/colunista/rubem-penz/concorrencia-pascal-3636. À época, candidataram-se os ratos, as galinhas, as formigas e, muito a contragosto, os bichos-preguiça. Como todos podem constatar nas campanhas publicitárias, para a felicidade dos coelhos, deu em nada. Parece que havia erros formais no documento, o que ocasionou sua denúncia e novo contrato emergencial com validade de cinco anos. Desconfio que entregaram a tarefa para brasileiros, que gostam mais de renovações emergenciais de contratos do que mulheres de chocolate.
Volto ao tema porque soube do lançamento de novo Edital com vistas para a Páscoa do ano que vem. Todavia, o desgaste do cancelamento anterior provoca baixo interesse na bicharada. Poucos se dispõem a enfrentar o lobby dos coelhos, que se reproduz em todos os níveis da administração pascal. Contrariando essa corrente, lá estão os leões, que prometem ser concorrentes de peso. A seguir, a justificativa dos Reis das Selvas:
Leões de Páscoa
Nós, leões, apresentamos nossa candidatura a animal símbolo da Páscoa para destronar de uma vez por todas os coelhos. Afinal, trono é prerrogativa de monarcas, o que somos de fato e de direito. Também porque, de alguma forma, mesmo sem ser a ideal (e quem liga para preciosismos?), nos relacionamos tanto com a comunidade cristã, quanto com a tradição alimentar – comíamos cristãos nas arenas romanas.
Outra vantagem é a de concorrer em pé de igualdade com o Papai Noel: é sabido que o bom velhinho carrega uma contradição implícita, um misto de fascínio e medo, impossível de ser explorado por adoráveis coelhinhos. Agora, no nosso caso, papai e mamãe podem recorrer às pequenas chantagens: se não comer tudo, vou contar para o Leão da Páscoa! Nada melhor do que um carnívoro que habita o ápice da pirâmide alimentar para impor respeito.
Porém, no cerne de nossa defesa, está a coincidência de a Páscoa acontecer no momento em que as pessoas se preparam para prestarem contas com o Imposto de Renda, onde já estamos presentes. E a ação governamental combina com os ritos pascais em diversos pontos:
O contribuinte é convidado à ceia que precede o sacrifício e, nela, o governo já avisa que há traidores entre eles. Mesmo assim, segue com o jantar até o final, pois o problema de amanhã se resolve no dia seguinte.
O traidor é corrompido, levando o contribuinte à Via Crucis da saúde, da segurança, da educação, da infraestrutura etc. Em sua jornada, é submetido aos piores tratamentos e às maiores humilhações.
Por fim, imolado em praça pública, morre com o dinheiro devido aos cofres da viúva, na esperança de ressuscitar no momento da devolução dos eventuais valores de restituição.
Por tudo o que foi exposto, é pleito legítimo dos leões serem o novo animal símbolo da Páscoa.