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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Notas fúnebres e musicais

12/14/2011 02:45:29 PM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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Teria mesmo morrido o Jazz? Ao menos é isso que apregoam alguns músicos mais puristas, estudiosos e consagrados. Mas o que dizer do Tango? Ou do Choro, da Rumba, do Blues, do Rock? (a lista pode ser numerosa) Bom, se o Jazz nos deixou em 1959, tese do trompetista Nicholas Payton, e os demais movimentos anos antes ou depois por extensão de raciocínio, o que nós, artistas, estaríamos fazendo sobre os palcos? Depois da morte, até onde sei, vem o silêncio. E silêncio não há.
Observo que o filosófico tema de vida e morte nas manifestações artísticas rende vastíssima pauta. O pessoal adora digladiar sobre quando nasceu ou morreu determinado estilo, quem foi o pai, a mãe ou o médico que assinou o óbito (depois de receitar tranquilizantes além da conta...). Também quem embalou seu crescimento, com quem se relacionou e se deixou descendentes legítimos ou bastardos.

A Bossa Nova, por exemplo, alimenta uma farta polêmica sobre sua paternidade. De acordo com Ruy Castro, o verdadeiro pai da música é o pianista Johnny Alf. O senso comum – ou um lobby melhor construído – jura que foi o João Gilberto a fecundar a batida e gerar os primeiros acordes. Um frágil consenso paira sobre o dia e local do parto: teria ocorrido nos estúdios de gravação do álbum Canção do amor Demais, de Elizeth Cardoso. O que nos remete a Tom & Vinícius, outros implicados na fornicação. Além desse pessoal citado, pode-se, fácil, elencar mais dez, vinte candidatos... Aliás, como sempre acontece quando o filho é bonito.

Voltando ao Jazz – e ao passamento – teria o estilo morrido de causas naturais? Suicidou-se prevendo que o então pequeno Kenny G, mal saído das fraldas, aprenderia saxofone? Ou seriam novas correntes de criação a sufocar o Jazz, tomando toda a atenção? Na lógica, podemos inscrever a Bossa Nova como candidata à asfixia, lembrando que ela nascera em 1958, véspera do suposto óbito do outro. Uma quarta hipótese pode defender que nem o Jazz, nem o Elvis, morreram de verdade. Um vive incógnito em Memphis, ganhando a vida como imitador de si mesmo (e longe de ser o melhor). O outro segue saudável em New Orleans, íntegro e altivo no Bairro Francês. Cobrando-me visita, inclusive.

Sem almejar o peso da razão, minha teoria é a seguinte: morreram de verdade o momento e a circunstância que fizeram nascer o Jazz (e o Bolero, a Milonga, a Marcha Rancho, o Frevo...). Aí estão pai e mãe. Os músicos da época foram aqueles aos quais a notícia chegou, cumprindo a função de propagá-la. A magia do artista é ser capaz de compreender o recado; seu valor é dominar a técnica que permita transmitir o recado; seu sentido de vida será o de cumprir tal missão. Porém, nascido o estilo (a vertente, a batida, o movimento), mesmo tendo falecido os pais, o próprio seguiu fecundando novas almas e mentes. O Jazz não morrerá jamais porque ele mesmo trata de sua sucessão. Já não é mais filho: agora é pai e avô. Também é mãe. E pariu com sucesso, quem diria, até o Kenny G...

Rubem Penz

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