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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Nota Fiscal nº 2184

10/15/2008 10:06:50 AM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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Filhos sempre pedem. Muitas vezes pedem sem parar. Pedem até esgotar nossa paciência. Aprendem cedo a dizer: – Eu quero! E repetem esta ladainha como um disco arranhado. Alguns pais, por não conseguirem suportar a carga de pedidos, até evitam andar com os filhos na hora de fazer compras. Mas se a criança fica em casa, os comerciais da TV dirão: – Peça! Os vizinhos e colegas com suas mil novidades dirão: – Peça também! Conseguir negar se constitui uma das tantas tarefas dos pais/educadores. Preparar os filhos para lidarem com as frustrações desde cedo e mostrar-lhes o singelo fato de que não se pode – ou deve – ter tudo é o melhor caminho para forjar adultos saudáveis. Enfim, recusar-se é, antes de tudo, uma prova de amor.

Claro que aí tem um problema: os pais gostam de atender os pedidos dos filhos, tenham eles seis ou dezesseis anos. Por que negar um sorvete, uma pastilha de hortelã, uma barra de chocolate? Quando temos condições, qual o problema de comprar um brinquedo, um jogo, uma bicicleta? Será que aquela novidade eletrônica “que todo mundo já tem” precisará ser eternamente sonegada em prol de uma sólida formação de caráter? Ainda mais em uma data comemorativa? Não! O brilho nos olhos de quem tem o pedido satisfeito é indescritível. É muito gratificante ser capaz de oferecer aquilo que, se fôssemos crianças ou jovens, adoraríamos ter. Ainda mais se o filho vai bem na escola e não causa preocupações. A felicidade de quem oferece, ainda mais quando temperada por renúncias pessoais, também pode ser considerada uma das faces do verdadeiro amor.

Como toda criança, pedi muito mais do que fui atendido – e olha que, pensando bem, ganhei horrores de coisas. Lógico: pedi tudo aquilo que em minha época foi moda ou novidade. Agora, vejam só, me tornei julgador de pedidos. Com o risco de estar errando aqui e ali, resta o consolo de que, deixando de ganhar tudo de mãos beijadas, minha gurizada vai crescer com a consciência de que as coisas precisam ser conquistadas. Lembrando dos meus pais, o que me foi oferecido ou negado deve ter seguido mais ou menos os mesmos critérios que adoto na posição invertida, em pleno acordo de casal: balanços de viabilidade econômica, avaliação da real utilidade, palpite sobre o quanto o pedido reflete um desejo verdadeiro e percepção de importância do objeto (ou experiência) na vida do filho.

Tudo isso veio à baila neste momento, bem quando minha mãe me ofertou um documento caprichosamente guardado em sua casa: a nota fiscal de número 2180 da Casa Beethoven, emitida em 22 de dezembro de 1977. Nela, está descrita a compra de uma bateria profissional no valor de onze mil cruzeiros. Incrivelmente, no mesmo dia em que foi encontrado esse papel nas coisas do pai, eu, ainda sem saber, expus para amigos a circunstância daquela compra: a promessa feita e cobrada, o acordo entre pai e filho. Descrevi tudo em detalhes, pois, como não poderia deixar de ser, o dia – aquele Natal – se tornaria inesquecível.

Tenho medo de calcular o que representa na atualidade o valor pago pelo instrumento musical no distante ano de 77. Garanto aos mais jovens que deve ser uma cifra muito, muitíssimo superior ao que custa uma bateria comum nas lojas de shopping. Contudo, nem o dinheiro empregado, nem o barulho que estaria por vir até que eu me tornasse capaz de acompanhar a música, nada dissuadiu meu pai de me dar tal presente. Ainda bem! Tomara que, quando chegar a minha vez de atender a um pedido que venha a determinar a vida dos meus filhos, eu esteja assim atento. Devo isso a eles. E devo, também, ao avô deles.

Rubem Penz

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