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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Não é você, sou eu

12/16/2010 06:35:22 PM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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São muitas as expressões que, quando ditas, devem ser compreendidas exatamente ao contrário. No fundo, elas não passam de tentativas vãs de retardar, iludir, despistar ou confundir. Truques manjados, mas recorrentes e imbuídos de
uma esperança comovedora de que ainda possam funcionar.

Mensagens que até podemos fingir que acreditamos, no exato instante em que uma luz vermelha começa a piscar no sistema límbico de nosso cérebro: perigo, perigo! Exemplos: Não vai doer. Seria mais verdadeiro dizer que a dor é pouca, todos até agora suportaram, não se conhece casos de traumas ou desmaios, quando passar nem lembraremos mais. Porém, quem está disposto a ser honesto antes de provocar
dor no outro? Quando se é criança, podemos até nos iludir na primeira vez.

Depois, muito rapidamente criamos anticorpos. Agora falta pouco. Frase que costuma saltar da boca daquele que nos conduz, logo que a metade do caminho é rompida. Às vezes até antes. Relatos históricos dizem que fora proferida quando,
ao dobrar o Cabo da Boa Esperança, um marujo novato se mostrou ansioso. “Já chegamos à Índia, Capitão Bartolomeu?”
“Ainda não, mas agora falta pouco...”

Eu sempre acreditei em ti. Uma das sensações mais prazerosas da vida é a de superar limites. Chegar além do vislumbrado,
conquistar o impossível, vencer obstáculos contrariando as mais otimistas previsões. Porém, logo depois, ainda sob o castigo da exaustão ou a vertigem da glória, não faltará aquele que jamais lhe creditou um centavo a proclamar surpreendente
fé. Estará pronto em duas semanas. Intervalo mágico de tempo mais utilizado do que tijolo e cimento na construção civil.


O pior é que já escutei esta previsão dita por toda a cadeia laboral envolvida: do servente de pedreiro ao arquiteto. Acho
que a conta mental é a seguinte: uma semana é escárnio. Dizer a verdade, suicídio. Não sou mais aquela pessoa que você
conhecia: ela já morreu. Das duas, uma: ou você está diante de um zumbi, ou de alguém, fatalmente, mentindo. Nem os mais dispostos a crer em reencarnação dispensam a passagem efetiva para outro plano espiritual antes de retornarmos
como outra pessoa. Crendo, a lógica aponta para um futuro onde nascerá desejo legítimo de morte. Nunca nem olhei para ela.

Se existe algo que os homens fazem por ato reflexo, sem chance de controle, é olhar. Olhamos sempre: de soslaio, acintosamente, no susto, de caso pensado... Até constrangidos, quando sabemos que não deveríamos estar olhando. Agora, o leitor reparou na dupla negação da frase? Significa que o protagonista foi além do mirar. Prometo que paro. Aí está o exemplo cristalino e bem acabado de perjúrio.

E a pergunta que deve nascer dentro da mente, onde os sinais de alerta disparam, é a seguinte: se era para parar, por que começamos? Não é você, sou eu. Hors concours no sexo feminino. Pare o que estiver fazendo e inicie agora mesmo o seu exame de consciência, já que é você, sim. Mas, relaxe: não vai doer.

Rubem Penz

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