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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Longevidade

11/18/2009 10:34:57 AM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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Existem expressões, modos de falar ou metáforas que, de tão perfeitas, sobrevivem por um longo tempo, mesmo após a extinção do ato ou objeto gerador. Por exemplo: dar a mão à palmatória. Com o perdão do trocadilho, pode-se contar nos dedos as pessoas vivas que presenciaram (ou sofreram) tal castigo nas escolas. Oscar Niemeyer talvez seja um. Porém, o atual sistema de ensino não oferece um substituto com igual adequação. Ninguém em sã consciência vai considerar a possibilidade de, para demonstrar arrependimento, falar que “sim, me submeto a um convite à reflexão”. Mesmo sendo politicamente correta, a nova expressão nasce sem a metade da força.

Outra: caiu a ficha. Não imaginam o sorriso largo dos meus filhos no dia em que, vasculhando gavetas, encontraram um ficha telefônica de verdade. Foi um assombro darem-se conta de que aquele disco de metal significava, fisicamente, créditos para a conversa. Explicamos que, ao completar a ligação, ou quando terminava o tempo pago, a ficha realmente caía para dentro do telefone público, vulgo orelhão. Essa geração bem poderia dizer que “completou o download”. Então, por que continuam falando que a ficha caiu? A única justificativa que encontro me remete outra vez à palmatória: cair a ficha também é uma ação concreta, rica em movimento, som e significado. Tudo indica que sobreviverá Era Celular adentro.

Ainda no telefone, dois termos se inscrevem na categoria de expressões que, de tão bacanas, torço para que sobrevivam à nascente: passar um fio e ficar pendurado no gancho. Podem até ser usadas em uma única frase, por mais paradoxal que pareça: “o fulano ficou de me passar um fio, mas fiquei pendurado no gancho...”. Já andam raros os telefones com fio – só lembramos de instalar um desses quando a casa fica sem luz. E o gancho, a exemplo do disco, virou peça de museu. Mas, convenhamos, que maravilha de metáfora para a espera tediosa a de ficar pendurado no gancho. Ainda mais no tempo em que todo telefone tinha fio, o que obrigava uma imobilidade implícita!

Outro dia percebi que, nos supermercados, já não existem mais filmes fotográficos para vender. De tão raros, agora só em lojas especializadas. Com a popularização das câmeras digitais, ninguém mais corre o risco de, por acidente, ver queimado o seu filme. Mesmo assim, duvido que alguém reclame do outro dizendo: “ô meu, desse jeito você vai deletar minha imagem!”. Outra vez temos uma manifestação física suplantando em força de significado uma ação virtual. É um caso idêntico ao de virar o disco. “Camarada, você já me encheu: troca a pasta desse i-pod!” tem muito menos poesia do que “deixa de ser chato e vira esse disco!”. Isso sem falar na tagarelice repetitiva denunciada pelo disco arranhado...

Outra expressão que já não encontra mais eco em nosso cotidiano, mas, mesmo assim, é de perfeita e duradoura compreensão é “desandar a maionese”. Na época em que ela foi cunhada, as donas de casa empreendiam longo tempo e laborioso esforço para servir à mesa este alimento tão delicioso quanto calórico. Bater a maionese requeria cuidado, pois, caso desandasse, o trabalho restaria perdido e sem a menor chance de recuperação. Algo parecido com faltar luz justo agora, antes de eu salvar esse texto (ufa, salvei!). A noivinha que, hoje em dia, só conhece um fogão de ouvir falar, corre o risco de queixar-se para a mamãe que desandou a maionese no seu casamento sem jamais imaginar que o acepipe pode ser feito em casa, à mão.

Enfim, chego à conclusão de que as boas expressões, ricas em cores, sabor, movimento e plasticidade, sobrevivem ao tempo e enriquecem nosso vocabulário. Claro que as inovações tecnológicas podem deixar, por sua vez, seu próprio legado – isso o futuro dirá. Afinal de contas, não vão deixar o cavalo passar encilhado, né?!

PS: Quem lembrar-se de outras expressões e quiser me mandar, por favor: pegue esse bonde andando!

Rubem Penz

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