Rubem Penz Versão para impressão
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Eu era bem pequeno, mas recordo a luta da mãe e suas irmãs para convencerem a minha avó a migrar do seu tradicional fogão à lenha para o fogão com bicos de gás. Frau Seth foi reticente e tinha argumentos inquestionáveis: estava habituada à cocção nas chapas de aço, não via nenhum desconforto em rachar e armazenar lenha e, principalmente, cozinhar em fogão com chamas de gás alterava o sabor dos alimentos. Não procurava a praticidade do moderno nem ligava para a economia de energia e tempo. Também na cozinha da outra avó, Morena, a transição foi nada veloz. Durante muitos e muitos anos os dois modelos acomodaram, lado a lado, a base das panelas.
Meus filhos acompanham outra peleja: não há Cristo que faça a minha mãe usar o forno de microondas. Ela até tem um, mas nem ligado na tomada o pobre permanece. Enlouqueço quando a vejo aquecer o leite na leiteira: um dos meus traumas de juventude era lavar a louça quando lá estava aquela panela de leite com seu tradicional anel de gordura a ser vencido. Haja sabão e Bombril! Ela usa, também, o fogão e três panelinhas para aquecer uma comida pronta, ao invés de servi-la gelada, direto no prato, e colocar no micro.
Minha mãe, de modo cíclico, é reticente e tem argumentos inquestionáveis: está habituada à cocção nas chamas azuis, não vê nenhum desconforto em lavar panelas e, principalmente, o aquecimento em microondas altera o sabor dos alimentos. Minha sogra não: usa o micro de montão. Mesmo assim, reconhece que o eletrodoméstico não substitui inteiramente o fogão tradicional, o que projeta uma longa convivência de ambos em sua cozinha.
Lembrei disso para meter minha colher torta na entrada do e-book no mercado livreiro com mais efetividade. Fico pensando se a resistência de muitos será bastante eficaz a ponto de frear o processo. Mais: começo a ter muitas dúvidas se ela é, enfim, correta. O motivo para isso é o singelo exercício de imaginar grandes cidades como São Paulo com seus milhões de habitantes cozinhando em charmosos fogões à lenha.
A celulose, qualquer piá sabe, é a matéria prima para se fazer papel. Vem da madeira, aquele elemento que arde no fogão à lenha. Mesmo que na atualidade ela seja obtida exclusivamente de florestas artificiais e renováveis, o processo, no mínimo, utiliza-se de insumos e espaços agriculturáveis. Com o aumento brutal da população humana e a festejada redução dos índices de analfabetismo, o futuro fica complicado. E livros exclusivamente de papel podem ser algo tão anacrônico, poluidor e impraticável quanto fogões queimando lenha nos apartamentos das metrópoles.
E agora? Agora começa o período de tempo indeterminado (eterno?) em que livros tradicionais e eletrônicos passarão a conviver em nossas casas e bibliotecas. Muitas avós, pais, mães e tios serão alvo de incompreensão ao optarem pela compra de grandes volumes de brochuras ao invés de carregarem seus e-books. Se tudo isso resultar no desejável consumo da literatura, alimento insubstituível, tudo bem. Quem sabe, e eu rogo por isso, muito mais se produza e muitos mais terão acesso aos bons livros.
Porém, ninguém me convence de que é igual. Reticente, tenho argumentos inquestionáveis: estou habituado ao apelo tátil das páginas, não vejo nenhum desconforto em suportar o peso de alguns livros e, principalmente, ler em telas altera o sabor do que está escrito.