Rubem Penz Versão para impressão
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Nos anos setenta (1974-78), a série televisiva O homem de seis milhões de dólares – baseada no livro Cyborg, de Martin Caidin – transformou o biamputado Steve Austin, astronauta vivido por Lee Majors, em super-herói. Agora, em 2011, o atleta sul-africano Oscar Pistorius alcança a etapa semifinal dos 400 metros do Mundial de Atletismo de Daegu, Coréia do Sul, correndo entre atletas normais. Mais: bate o recorde nacional e guinda sua equipe à final do revezamento 4 X 400m. Isso, depois de ter vencido uma severa disputa jurídica com Comitê Técnico da Federação Internacional de Atletismo (IAAF). Motivo: as próteses biônicas poderiam garantir vantagens sobre os demais competidores. Longe da ficção, forjar heróis é mais complicado.
Com base na letra fria dos resultados biométricos – que supunham benefícios ilícitos no impulso das pernas postiças –, alguns defenderam a tese de que Pistorius deveria disputar apenas certames especiais, como os Jogos Paraolímpicos. O temor dos técnicos repousava sobre o que está sendo chamado de doping tecnológico. A luta contra doping químico nos dá pistas para possíveis tentativas antiéticas... Mesmo assim, a posição de liberá-lo prevaleceu. Afinal, não parecia razoável condenar o menino que teve as pernas amputadas aos onze meses de idade à eterna marginalidade – no sentido amplo do termo.
Em três décadas, ao contrário, temos bastante a comemorar em termos de inclusão. Creio que bem mais de seis milhões de dólares – cifra que dava nome à série – já foram investidos em pesquisa para assegurar a muitas pessoas, e não apenas a uma (ou duas, se lembrarmos da biônica Jemmie Sommers) a possibilidade de caminhar para além da cadeira de rodas. Contornando a fatalidade através da tecnologia, a humanidade devolve a quem precisa as condições, se não ideais, próximas de uma igualdade plausível. Há também descobertas fazendo cegos enxergarem, mãos biônicas com gestos controlados – em vias de sentir frio e calor –, sem falar nos transplantes.
Pistorius, três ouros em Paraolimpíadas, pode jamais ascender ao alto do pódio Olímpico – comprova isso a inexplicável decisão de retirá-lo da final do revezamento 4 X 400m, mesmo sendo ele um dos responsáveis pela classificação da equipe, às vésperas da prova. Porém, ele já tem uma aura de super-herói: se o astronauta Steve Austin era escalado para missões de espionagem, ao velocista sul-africano cabe a tarefa de vencer preconceitos em favor dos portadores de deficiências físicas. E, para concluir no terreno das coincidências, o chefe do Cyborg também se chamava Oscar. E o sobrenome? Goldman!