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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

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06/11/2008 11:01:25 AM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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É seu primeiro apartamento. Novo: ele será, também, o primeiro a habitá-lo. Entre tantas providências a tomar, precisa instalar uma campainha. Por isso, o rapaz está diante do solícito proprietário da lojinha de ferragens da esquina.

– Por favor, eu gostaria de uma campainha. De preferência musical.
– Pois não... – diz o senhor, sorrindo por detrás do bigode branco. Abandona o balcão por instantes e retorna com o painel de opções.
– Musical, temos essa aqui:
– Din-dom!

O jovem torce o nariz. Pergunta se ele não tem algo mais masculino. Partem para a segunda alternativa:
– Tééééééééééé!
– Olha – o cliente quase se desculpa – isso não é nem parecido com o que eu estava pensando...
– Mas são boas campainhas, meu filho – interrompe o comerciante. – Muito duráveis, garanto.

O rapaz acreditava na qualidade das campainhas. O problema era que aqueles produtos estavam tecnologicamente muito distantes de sua rotina. Tira, então, o telefone celular do bolso e pergunta se o vovô – segundo suas próprias palavras – fazia idéia de quantos toques diferentes tinha o pequeno aparelho. E não espera a resposta:
– Trinta, meu senhor. Trinta! Eu ainda posso baixar quantos mais quiser via MP3. Compreendeu a diferença?
– Sabe – diz o vendedor, mexendo em alguns cartões de visita que tira da gaveta – até uns dias atrás eu ainda tinha uma campainha aqui que fazia trrriiimmm. Parecia um telefone, mesmo! O menino iria gostar. Posso lhe reservar uma, o representante passará na semana que vem.

O rapaz se enche de esperança:
– Vem cá, e com essa eu vou conseguir programar os toques? Tipo assim: no celular, quando é o meu irmão quem liga, toca Green Day. Se é a mãe, uma sirene – ri da própria malandragem.
O vendedor responde que não. Era só um trim, tipo de telefone. Mas que na casa dele já usavam toques personalizados:
– O meu filho, por exemplo, demora uns dois segundos entre o din e o dom. A filha também, mas segue com um din-dom rapidinho na seqüência.
O cliente emudece, perplexo. O comerciante, então, completa com orgulho:
– Viu? A gente sempre sabe quando é um ou outro!
O jovem finge espanto:
– Não acredito!
– É verdade! – ele responde sem ligar para a ironia. – E, na casa de um amigo meu, o sistema é ainda mais sofisticado. Ele ensinou o código Morse para a gurizada. Pouca coisa: só as iniciais. São cinco filhos e sempre se sabe quem está na porta!

O rapaz se desespera:
– Morse é museu! O próximo celular que eu comprar vai ser 3G. Terceira geração, sabe? Aí, vou poder olhar para quem me liga via internet, tipo videoconferência!
– Bom, mas essas campainhas já fazem isso sem ser de 3G.
– Ah, fazem, é?
– Claro!
– Como?!
– Só precisa instalar um periférico – diz, demonstrando conhecer um pouco do jargão digital. Pede licença com a mão e vai até a prateleira. Retorna com uma caixa minúscula e um sorriso imenso:
– Aqui está: um olho mágico!

Rubem Penz

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