Rubem Penz Versão para impressão
Enviar para um amigo
|
Quando tinha quinze anos, ainda
nas categorias de base, tropeçou
em um fio e entrou no campo
pulando duas vezes com o pé direito.
Naquela tarde, marcou o mais belo gol de
sua iniciante carreira – meia bicicleta, logo
atrás da marca do pênalti, no ângulo. Dali
para frente, jamais dispensou aqueles dois
pulinhos que lhe deram tanta sorte.
Em outra oportunidade, nas finais do
campeonato regional, ao dar seus dois
pulinhos, desequilibrou-se e rolou em uma
cambalhota. Quase morreu de angústia.
Suava frio perfilado para a fotografia.
Porém, marcou dois gols, o segundo
aos quarenta e dois do segundo tempo,
garantindo a vitória. Ah, que dúvida:
adotou a cambalhota.
Era sua primeira partida na Seleção Sub-17.
Deu seu dois pulinhos, a cambalhota e aplaudiu
de volta as manifestações da torcida. Naquele
jogo, não só fez dois gols, como também foi
escolhido pela crônica especializada como
o melhor em campo. Quem foi que disse
que dormiu à noite? Já amanhecia quando
teve convicção de quantas palmas batera na
entrada em campo.
Sentado no banco de reservas, aguardava
com esperança pela chance de compor
entre os profissionais, quando uma mosca
quase pousou em seu rosto. Enojado,
sacudiu as mãos, a cabeça e, surpresa!,
chamou a atenção do técnico. Passava dos
trinta e cinco do segundo tempo. Deu
dois pulinhos, uma cambalhota, dezenove
palmas e substituiu o número dez. Mudou
o jogo, revertendo um empate vexatório.
Estréia como titular no time. Todos
os parentes na arquibancada. Pediu, ou
melhor, implorou para ser o último da fila
no momento de entrar em campo. Deu
dois pulinhos, uma cambalhota, dezenove
palmas e sacudiu com violência a cabeça
e as mãos ao entrar em campo.
A torcida, obviamente, estranhou. Ouviu-se um
apupo. Olhando para as sociais, identificou
o pai, a mãe e a avó. Saltou e acenou usando
toda sua envergadura. Na primeira jogada,
mal apitara o árbitro, já estava marcando
um gol. O seu mais rápido gol!
Escutou pelo rádio: saíra a convocação
para a seleção nacional e seu nome estava
na lista! Um amistoso, longe da Copa do
Mundo, contra um selecionado obscuro da
Europa Oriental, mas era a oportunidade.
Fazia muito frio. No primeiro treino, depois
de entrar em campo com dois pulinhos,
uma cambalhota, dezenove palmas, uma
simbólica espantada de mosca e sete
polichinelos, deu uma corridinha no mesmo
lugar para reforçar o aquecimento. Então,
testemunhou uma lesão grave no titular
absoluto de sua posição.
Imediatamente trocou de coletes e viu
asfaltada sua estréia como meia atacante
da seleção. Adotou a corridinha.
Hoje, Ivanilson tem trinta e seis. Faz
três anos que foi repatriado, depois
de passar doze jogando nos maiores
clubes do mundo. Já foi a quatro Copas.
Vende saúde. É sempre determinante
nas partidas.
Também o único que dispensa aquecimento
antes de entrar em campo. Fica ali, divertindo
a torcida com novecentos e oitenta e quatro
movimentos, integramente repetidos
em ordem, algo que já consome quase
vinte minutos.
Até abandonar a bola, crê que chegará
aos mil amuletos.