Rubem Penz Versão para impressão
Enviar para um amigo
|
Soube de uma história inverídica que,
mesmo que fosse mentira deslavada,
bem que pareceria verdade. Um amigo
bem desolado procurou por Áureo (ocultarei
sua identidade neste nome fictício).
Pediu para sentarem em um lugar discreto, pois haveria
um tema delicado para abordar. Áureo ficou
levemente apreensivo e não deixou que
chegassem ao assunto antes de dois ou três
chopinhos, para dar uma relaxada.
Deu certo, pois ambos deram risadas relembrando
passagens da vida escolar. Depois de julgar que
o clima estava mais suave, Áureo se fez ouvidos.
Depressivo outra vez, o amigo chegou ao
ponto: Sabe – falou acabrunhado e com a voz
fugidia – notei que eu estou sempre, sempre,
sempre lá no etc.
Atormentava-o a certeza de nunca ser
mais do que um entre tantos, justamente
aqueles mesmos sempre presentes, contados,
esperados, desejados até, mas jamais
nomeados. Sentia-se o eterno dançarino do
corpo de baile. Figurante em cena.
Rosto buscando desesperadamente a brecha entre
os ombros no fundo da fotografia, mas nem
assim sendo reconhecido. E, para piorar, carregara
a família para o mesmo destino. Não
que almejasse pódio, prêmios e honrarias.
Estava consciente de que nunca galgaria a
altitude dos campeões. Seu pleito era mais
modesto: bastava-lhe uma citação nominal,
por menor que fosse.
Confessou que nada disso fora muito
importante até então. Mas agora que os filhos
estavam crescidos, cada vez mais informados
e críticos, cobravam-no a suposta invisibilidade
a todo instante. Ué, você e a mamãe
não estavam nesta festa, papai? – disse uma,
folheando a revista.
Este ocupando meia página de jornal não é o seu
colega de trabalho? – falou o outro. Não entendo, papai:
pagaram uma nota para estarem no camarote
do show, entrevistaram quatro ou cinco
pessoas e vocês só apareceram nas frações
de segundo de uma tomada panorâmica
típica de edição... – reclamou a mais velha.
Áureo colocou a mão no ombro do amigo
e disse compreender.
Ponderou que a geração dos seus filhos estava sendo
criada em um momento histórico diferente, até certo
ponto doentio. A massificação das mídias, o
fenômeno das redes sociais e sites tipo youtube
deram para eles a falsa impressão de
que são melhores os homens e mulheres que
aparecem mais do que os outros.
Porém, o culto à celebridade instantânea, tipo Big Brother,
na realidade criava ídolos sem critério. E
que isso tornou o verdadeiro mérito da visibilidade
algo até certo ponto questionável.
Por fim, disse que não cansava de denunciar
isso nas diversas entrevistas que dava na TV,
no rádio e no jornal.
Naquele instante, Áureo sentiu que pisara
na bola. Também se arrependeu dos tantos
chopes que havia insistido em consumirem.
O amigo bateu com força na mesa e esbravejou
que era disso mesmo que ele estava falando,
e que não entendia como um deles estivera
continuamente citado em tudo o quanto era
oportunidade, enquanto o outro, sempre ao
seu lado, permanecia invisível.
Anonimamente, trabalhara para eleger Áureo representante
de turma, conselheiro no clube, presidente
na associação, delegado nos congressos... E
eu? Sou menos do que um cão – falou aos
prantos – pois ele ainda ganha afagos.
Foi quando o amigo, num rompante,
apanhou uma faca na mesa ao lado. Matou
Áureo em cena violenta, estúpida, chocante.
No dia seguinte, todos os conhecidos
foram surpreendidos quando viram o jornal.
No rodapé, o clube e a associação pagaram
belos anúncios fúnebres. Áureo também
apareceu em perfil extenso e detalhado na
coluna de obituário. Enquanto isso, a manchete
de capa estampava garrafal: “Dezessete
mortes em fim de semana violento”.
Na fotografia, o destaque foi para uma chacina
em boca de fumo. No corpo da notícia apareceu
o caso do ladrão em fuga que bateu
no ônibus que voltava de uma romaria, o
afogamento de um operário na estação de
tratamento de água, o filho do comerciante
que fora baleado diante do pai etc.