Rubem Penz Versão para impressão
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Ei, você que está sem tempo; que está
sem saco; sem paciência: tudo parece
pesar sobre seus ombros? Família,
compromissos, dívidas, metas, microvarizes,
macroeconomia... Tarefas de ontem para
hoje ou, pior, de hoje para ontem. Enxaqueca,
pressão alta, índices de colesterol e
Dow Jones a preocupar. Clientes, pacientes,
impacientes... Você sabe onde foi parar
aquele seu sorriso fácil, inocente e franco?
Ele está bem aí, no seu rosto. Só precisa
do espelho certo para aparecer.
Eu já comecei a resgatar meu sorrir.
Tenho sorte: retiro o espelho mágico
de tempos em tempos da gaveta. Fui
apresentado para ele faz dez anos e não
pretendo esquecer jamais de sua existência.
Descobri no olhar dos amigos de infância
o reflexo do meu melhor sorriso. Aquele
que tenho mais verdadeiro. Melhor: notei
que todos ainda sorriem do mesmo modo
diante dos meus olhos. E falam bobagens,
recordam histórias, mostram a criança que
jamais deixará de existir. Ao menos para
quem a deseja viva.
Muitos espelhos me aguardam em outubro.
Há uma tradição na escola em que
cursei o ensino fundamental e médio: a
cada intervalo de dez anos, os formandos
preparam uma festa. Nada de extraordinário,
apenas música, algo para comer e beber, um
salão enfeitado. Porém, a experiência de
encontrar centenas de amigos de infância
transforma completamente o cenário. J
uro que nenhuma festa de casamento, batizado,
Natal ou Ano Novo supera o índice de
sorrisos do reencontro. Sorrisos-espelho. Há
quem more nos EUA com passagem marcada
para Porto Alegre!
Um encontro comigo, aos dezessete
anos (ou menos).
Nem todas as escolas incentivam este
espírito de geração, de turma, de colegas
para vida inteira. Sou alguém de sorte. Meus
companheiros, também. Assim que começamos
a organizar o evento, os mais sensíveis se deram
conta de que beberão o elixir da juventude:
diante de nossa geração, somos todas as
idades, inclusive (principalmente) as que
ficaram bem para trás. Resgataremos apelidos,
vamos nos lembrar dos professores, das roupas
e bravatas. Mais: ofereceremos e tomaremos
de volta olhares sobre um período formador
de nossa história. Serão poucas horas que
valem dez anos de espera.
Nesta década, desde o último encontro, a
vida não parou: entre nós, houve sucessos e
fracassos, muitas perdas – algumas tão doídas
que brotam lágrimas enquanto escrevo
–, nascimentos, formaturas, casamentos,
separações, viagens de ida ou de volta.
Assunto não faltará caso o presente entre na
ordem do dia. Uns podem se surpreender
com o menino tímido que hoje é um astro, ou
com a moleca transformada em autoridade.
Outros, talvez a maioria, reconhecerão no
amigo de infância o caminho já traçado em
tempos idos: tão bom em matemática, a
carreira acadêmica caiu-lhe feito luva.
Do Colégio Anchieta para a vida, sem
perder-se das lembranças.
Os espelhos de classe já circulam entre
colegas: nossas fotos em 3 X 4 nas turmas,
ordenados pelo alfabeto. Ali estou, trinta
anos atrás. E os outros, até os que já não
mais estão por aqui. Especialmente eles...
Nem todos sorriem nas fotos. Mas posso
apostar que estarão felizes ao entrarem
no salão. Meninos e meninas. Crianças
grandes que encontrarão tempo, saco e
paciência para dar um nó na rotina e um
golpe no calendário. Sorrir tão largo que,
de ponta a ponta, alcançará de 1981 até
2011. Como por encanto.
E você: descobriu seu espelho mágico?