Rubem Penz Versão para impressão
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Nenhuma diferença entre os dois, dissera o corretor de imóveis, eles são absolutamente espelhados. Então o rapaz optou por alugar o apartamento 702. A mudança aconteceria em poucos dias. Para a moça da sala de espera, e que se ergueu enquanto ele se despedia satisfeito, não restou escolha. Porém, caso houvesse, teria mesmo ficado com o 701: 7+1=8, o número do infinito. Sorte. Também pressa – suas coisas já estavam a caminho, vindas do Espírito Santo.
Cruzaram-se novamente bem no meio do corredor do sétimo andar. Ele trazia nas mãos o tocadiscos Technics SL 1210 MK2, uma preciosidade. O grosso das coisas subiria pelo elevador de serviço. Ela levava consigo algumas pastas com trabalho e uma expressão de noite mal dormida. A famosa cara de poucos amigos. Nem bom-dia, nem olá, nem ao menos um oi.
Ao cair da tarde, diante da janela, enquanto ele se deixava impressionar pela nova paisagem ao som de Aretha Franklin, Natural Woman, uma luz estranha acendeu às suas costas. Entrava através da porta do banheiro, invadindo a sala de estar. Foi conferir e, para grande espanto, ali estava a mesma moça da manhã com o olhar fixo para ele. Bem do outro lado do grande espelho que ocupava toda a parede sobre a pia. Ele abanou, fez uma careta, dançou para ela que, alheia, apenas conferia as próprias olheiras. Absolutamente espelhados, lembrou. E sorriu.
Maravilha! It’s cool, diria se fosse personagem de comédia romântica. Acompanhou um xixizinho, o lavar das mãos e, quando ela apagou a luz, ao partir, o reflexo original voltou para o espelho, ainda que fugidio em razão da penumbra. Ele tratou de acender suas duas luzes: a do teto e o spot do espelho. Tateou, percutiu, quase encostou o rosto para ver se havia algum truque. Normal. Anormal. Sensacional!
Eram dias muito ocupados e noites com ainda mais interesses para conferir. Ele, satisfeito com a paisagem, nem fazia muita questão de encontrar a bela vizinha pessoalmente. Ainda mais que ela estava sempre com aquela cara de me deixa só e não perturba. Tão linda e asseada, mas fria como o toque no vidro. Seria timidez ou soberba? Chegou a forçar um esbarrão na garagem, entre os carros, esperando o enunciado: você não se enxerga no espelho? A resposta na ponta da língua – Não!
Desde o princípio, também, ele desconfiou que o efeito espelhado pudesse acontecer de lá para cá, cuidando para não fazer algo que viesse a chocá-la. Ao contrário, caprichava nas poses, caras e bocas como se estivesse participando do mesmo Big Brother que tanto o distraía. Resolveu usar e abusar do artifício da nudez. Entretanto, nada de ela o perceber, logo ele que tinha tanto orgulho de seus dotes. Nem bom-dia, nem olá, nem ao menos um oi.
Quando ela partiu, e mal transcorrera o ano de contrato, ele foi incansável ao batalhar por uma chave do 701. Precisava muito saber se era visto pela vizinha, dúvida atroz. No grande espelho sobre a pia, escrito com batom vermelho, adeus.