Rubem Penz Versão para impressão
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Felicidade, amor, paz, liberdade, saúde, prosperidade... Passadas as festas de fim de ano, estas palavras ainda ecoam em nossas mentes como sendo votos de grande mérito para si e para o próximo. Porém, se repararmos bem, estão todas elas muito mais ligadas aos nossos direitos do que aos nossos deveres. Por isso, quero desejar aos meus queridos amigos algo que nos ajuda muito na hora de merecermos estes tão bons desejos, mas que implica uma certa ação de nossa parte: equilíbrio.
O equilíbrio é tão importante que, com ele, podemos alcançar a prosperidade, por exemplo, sem perder a paz. Da mesma forma, conquistamos o amor e não abrimos mão da liberdade. É também com uma boa dose de equilíbrio que passaremos momentos muito felizes sem colocar em risco nossa saúde. Além do mais, todo ano nos reserva algum revés (quando não, vários), seja no âmbito profissional, familiar ou pessoal. Nestas ocasiões, o equilíbrio será mais do que fundamental para darmos a volta por cima.
Quando falo em equilíbrio, não me refiro a compensações, conceitos muitas vezes confundidos: algo como contrabalançar doses pesadas de ausência com presentes caros. Muito pelo contrário. Ao permitirmos que uma única faceta se agigante, não bastará inflar outra parte para corrigir o eixo, mesmo que ela pareça pertencer a um campo oposto. Muito mais positivo e lógico é contrabalançar ausência com... presença! Desta forma, equilibrando nosso comportamento, é possível equalizar nossa vida com muito mais precisão.
Quando desequilibrados para o lado do bem, ficamos também muito vulneráveis. Hipertrofiar sentimentos altamente positivos, tais como a bondade, a humildade, a capacidade de doação e a serenidade, pode até, ao contrário do que se imagina, nos causar grande sofrimento (por mais incrível que isso possa parecer). Tudo vai depender de como a sociedade interpreta este fenômeno, e de como conseguimos reagir diante disso. Não digo que tenhamos de ser maus, mas fico me lembrando de lições primárias que passamos aos filhos: saibam se defender – nem que, para isso, uma certa força seja necessária!
Este meu desejo pode até soar meio tolo para quem não vê o quanto de desequilíbrio nos rodeia e afeta. Mas, basta um olhar mais crítico para constatarmos mulheres com seios enormes, porém com cérebros murchos; homens com automóveis de luxo e maneiras dignas de um mendigo; crianças em colégios finos e com valores bastante toscos; jovens muito criativos e sem iniciativa alguma. Equilibrar-se será um mérito para todos que buscam a felicidade, não importando a idade, o sexo, a raça ou a posição social. E garanto que é possível ser equilibrado na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença. Seguindo assim, de bem com a vida, até que a morte dela nos separe.
* Crônica extraída do livro O Y da Questão. Motivo: breves férias.