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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Emendas e soneto

11/19/2008 10:11:07 AM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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Querida,

Se você está lendo esta carta, é porque abriu a gaveta que era só minha. E, prosseguindo na busca de documentos, é certo que chegará ao envelope pardo que está bem no fundo. Por isso, me adianto em explicar seu conteúdo... Caso não tenha desconfiado, sempre sonhei em ser poeta. Quando lhe conheci, compus um soneto dedicado ao mágico sonho que era o amor nascente. Porém, por perfeccionismo – insegurança? –, voltei ao poema a cada março, nosso mês. Minha idéia era revisá-lo para que fosse ao máximo fiel, sem medo de fazer supressões ou acréscimos.

A primeira grande alteração aconteceu depois do casamento. Para melhor, imaginava: muitos versos românticos cederam espaço para um conteúdo mais envolvente. Erótico, ouso dizer. Troquei minha imaginação por nossas descobertas. Seu corpo ganhou mais destaque a cada verso. Cantei suas formas e sabores; seus olhos e suspiros; seu sorriso ao amanhecer. Garanto que não poupei mesuras. Estava quase convencido a lhe mostrar o soneto quando chegou a notícia da gravidez. Senti que era preciso, contigo, esperar.

A chegada do Alfredinho deu novas cores à minha vida. Como havia intuído, meu soneto já pedia outros versos, com o encanto da maternidade, robusta e lânguida. Descobri em você uma nova mulher. Plena, eterna. Perdi noites em busca do melhor tom – um tanto de cantiga de ninar, outro de amor roubado nas madrugadas. Também tínhamos a casa nova, ambiente idílico para versos cabais. Paredes brancas, imaculadas; janelas nuas e poucos móveis. Tudo a me ocupar. Novas rimas, inclusive.

O soneto parecia novamente pronto antes mesmo da mobília estar completa. Mas a vinda de um novo filho impôs paciência. Filho nada: a nossa Ana Maria. O anjo mais lindo que Deus criou, agora estava posto em meus braços. Pergunto: como poderia deixá-la de fora dos versos, se Aninha era poesia em forma de gente? Além do mais, se um dia nossa flor quisesse ler minha obra, morreria de vergonha das confissões sensuais que cometia. Labutei na busca de casar aquele amor carnal à condição de família, legado de um novo tempo. Com o correr dos versos, o erotismo findou sutil, ainda que presente. O soneto, enfim, estava no ponto para ser revelado. O que não aconteceu...

André, rebento temporão, soterrou meu intento. Horror confessar algo tão imerecido, porém verdadeiro: já não conseguia cantar o terceiro filho com o mesmo lirismo de outrora. Junto a isso, sentia culpa em citar com tanta devoção o primogênito e sua irmã, relegando o caçula a uma emenda mal feita. Ou entravam os três com a mesma ênfase, ou saíam todos. Quando vi, o soneto, de pronto, ficou reduzido ao começo e umas rimas soltas pelo meio. Ainda mais que suprimi o cantar da casa, desiludido com aquela teimosa infiltração a nos escurecer as paredes. E você, minha amada, sempre exausta, em nada acudia o poeta.

Foram incontáveis os marços em que movi poucas linhas. Pobre soneto, restou abaixo das mensalidades escolares, das prestações da casa da praia, dos planos de viagens (adiados). Quando, enfim, os filhos saíram de casa, pensei que seria fácil concluir o trabalho: fazer o soneto definitivo. Passei vários anos, a cada fim de verão, lembrando contigo nossos tempos áureos. Aposentado, tinha paz, mas a inspiração me abandonara. Suprimir versos me parecia indiferente. Acrescentar, impossível.

Logo mais você encontrará, minha querida, sacramentadas no envelope pardo quase cinqüenta versões da mesma poesia. E nenhuma será melhor para a despedida do que o soneto original, de todos o mais fiel – meu retorno à magia dos sonhos.

Rubem Penz

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