Rubem Penz Versão para impressão
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Quantos pés têm numa mesa de bar? Qualquer um responderia que são, normalmente, quatro. Aí que está: isso quando ela está vazia. Sendo um tradicional ponto de encontro, pode-se dizer que a mesa de boteco terá tantos pés quanto maior for o número de pessoas que ali estiverem durante uma noite. Dezenas com certeza. Quem sabe até uma centena, entre chegadas e partidas. Numa semana, milhares.
Pés de todos os tamanhos: dos delicados 33 aos superlativos 45. Pés de chinelo, de sandália, tênis ou sapato. Pés descalços, se o bar estiver à beira mar. Alguns firmes no chão, outros aéreos – aproveitando as pernas cruzadas. Uns pisando inadvertidamente em vizinhos. Também pés que se tocam por carinho, muitas vezes de modo velado. Pés que tamborilam ao som da música, pés inquietos denunciando um tique nervoso, pés unidos em recato ou espalhados pelo chão afora. Pé por pé. Pé na porta.
E para onde anda essa centopeia? Para lugar algum, é claro! No máximo em pequenos deslocamentos para compor com outras mesas arranjos coletivos. Acontece que cada pé da mesa, como também cada cabeça, aponta para um lado. E, nesse empurra e puxa, a certa altura, a mesa perde os pés e ganha asas. Só os adeptos do bom papo de bar sabem o quanto se pode voar para além fronteiras sem sair da roda nem perder a rodada – seja em papo cabeça, ou em teorias sem cabeça nem pé.
A união de mesa de bar, boa companhia, assuntos variados e diversos pontos de vista sempre dá pé. E, mesmo dando pé, há quem afogue – a si ou as mágoas. Melhor dizendo, as duas opções: para o mar das lamentações, de nada servem pés de pato. É também nas voltas com as bolachas de chope que tomamos pé das coisas, mesmo com alguns a não falar coisa com coisa. E merece pé na bunda quem finca num assunto pé no saco.
Porém, antes que o leitor, boiando, fique pé da vida com essa crônica (ok, agora forcei um pouquinho, perdão), vamos tomar pé da situação: há motivos para tantos pés, e tem muito a ver com os pés das mesas de bar. Primeiro, devo lembrar que nenhuma ideia, por melhor que seja, sobrevive sem que finquemos os pés na sua execução. E foi isso que fiz quando convidei um novo grupo de escritores para a segunda turma da oficina Santa Sede – crônicas de botequim. Depois, os nove componentes foram incansáveis na hora de por o pé na estrada: escreveram muito, e muito bem. Oitenta e uma crônicas em seis meses de trabalho! Textos sobre a mesa; sob ela, nossa profusão de pés.
É preciso dizer, para o bem da justiça, que nada teria dado pé sem boas mãos. E que mãos! No livro Santa Sede – crônicas de botequim, Safra 2011, cujo lançamento será nos próximos dias, estão as digitais dos autores, editores, designers, corretor, gráfica... Minhas marcas também, vá lá. Todos com um pé que é um leque pela hora de colher as impressões dos leitores. Ao menos dos que curtem crônica, amizade, boemia e perspicácia.
Por fim – e, por favor, paciência com meu contentamento –, vou enfiar o pé na jaca e cometer outro trocadilho pela causa: quem não gosta de crônica, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do, agora, óbvio.