Rubem Penz Versão para impressão
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As teorias científicas são formuladas a partir de uma ou mais hipóteses. Depois, uma série de experimentos terá curso em busca das conclusões – as tais que podem tanto comprovar quanto desmentir as hipóteses (perdoem a simplificação). O problema é que muitos delírios também seguem o mesmo caminho, com uma sutil diferença: partem de uma hipótese impossível de ser comprovada – ou desmentida – e oferecem uma conclusão. Os casos mais corriqueiros deste fenômeno acontecem quando alguém nos diz: “mas se eu não tivesse feito tal coisa...” e, a seguir, apresenta uma conclusão. Pergunto: como podemos comprovar que alguma coisa aconteceria baseado em algo que não aconteceu? Ou mesmo desmentir? Aí que mora o problema.
Desconfio que as pessoas bem sucedidas na vida – aqui no sentido amplo, não restrito ao fator monetário – habitam o universo que chamarei de Antes do Se (A“SE”). Este lugar, que na verdade está mais para um tempo, antecede as hipóteses. Quando chegam a formular um “se”, ele está ligado a uma ação futura: “mas, e se eu der um beijo nela?”. Depois do beijo, caso venha o tapa, a conclusão será de que não foi uma boa idéia. Porém, na hipótese de ser correspondido, o beijo mostrará que ele não era o único interessado. Quem costuma projetar suas hipóteses para o futuro pode até dar com os burros n’água, mas sempre terá uma vida de certezas.
No segundo grupo, localizado em Depois do Se (D“SE”), estão os que tendem a ter a vida empacada. Como se colocam adiante das hipóteses, passam o tempo todo especulando sobre o que poderia ter sido, ao invés de sobre o que será. Para ficar no mesmo exemplo do parágrafo anterior, são as pessoas que passam meses (anos) imaginando o que teria acontecido “se eu tivesse dado um beijo nela” – isso depois de a moça ter deixado o recinto sem nem desconfiar que houvera tal plano. Na realidade, pouco importará a projeção de um casamento feliz ou a morte em um crime passional imposto pelo ex-namorado: sobre o que não aconteceu, todo raciocínio é delirante. Quem vive D“SE”, só tem as dúvidas para se agarrar.
Este tema me ocorreu ao assistir um debate esportivo na TV. Nele, a afirmação delirante de que “se o Bernardinho tivesse convocado o Ricardinho (levantador), o vôlei brasileiro não teria perdido a medalha de ouro na final olímpica de Pequim”. Muito antes de isso ser um enorme desrespeito com os atletas que lutaram muito para conquistar uma medalha de prata, é, no mínimo, uma falácia. Este “se”, referindo-se ao que não aconteceu, pode servir de base para todas as conclusões (inclusive a de que o Brasil seria eliminado na primeira fase, devido aos problemas de relacionamento no vestiário). Os treinadores, assim como os cientistas, formulam suas hipóteses antes das partidas e as põem em prática. Se não alcançarem os resultados, partem para novas possibilidades. Mas nem mesmo essas últimas serão garantia de nada – no máximo trarão uma maior probabilidade de acerto.
Imaginar que tudo poderia ser melhor caso outras decisões tivessem sido tomadas, ou outra seqüência de fatos ocorressem, pode até parecer reconfortante, mas, no caso, não passa de especulação mal intencionada. Pior: paralisa o sujeito no passado e transforma o presente em uma eterna frustração. Em tempo, lanço uma hipótese no estilo A“SE”: se nosso país continuar escutando comentaristas dando opiniões sobre o que poderia ter sido – mas não foi – o esporte nacional corre o risco de não ver fechada nem mesmo a ferida aberta na Copa do Mundo de 1950.