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Colunista - Rubem Penz

Crônicas

Amar ainda é?

03/25/2009 08:15:27 AM
Colunista - Rubem Penz

Rubem Penz

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Sabe você o que é o amor?
Não sabe, eu sei
Carlos Lyra e Vinícius de Moraes


Quando eu conheci o amor, amar era saber o nome e o sobrenome dela. Talvez até o nome da mãe, do pai e dos irmãos. Era transformar seu endereço em passagem para todos os destinos, fazer amizades na turma dela, aparecer nos sábados à tarde só para jogar um vôlei. Amar era somar cinco ou seis motivos para andar à sua volta quando, na verdade, o motivo era um só.

Amar era trocar correspondência. Receber dela a letra de Leãozinho, do Caetano, e responder com versos de Meu Bem Querer, do Djavan. Aliás, amar era ter uma música só para os dois, tal qual os pares das telenovelas. Escutar o mesmo tema uma tarde inteira ao lado dela, como se a poesia pudesse dar conta do passado e do futuro. Amar era ser fiel: a mesma música jamais serviria de trilha para outro amor.

Amar era descobrir encantos possíveis, pois nem todos os dotes nos eram franqueados. Assim, era preciso decorar o formato dos dedos dos pés, perder-se nas penugens da nuca, trilhar cada curva das orelhas, mergulhar nos olhos, curtir todos os segundos de um beijo. Brincar muito, pois, em jogos de sedução, as mãos podiam medir cada palmo de recusas e permissões. Amar era contar os sinais da pele com os dedos, fazer cócegas, dar sustos.

Amar era viver no eterno sobressalto da insegurança. Desconfiar do cochicho da amiga, principalmente quando seguido de sorrisos maliciosos. Temer a aproximação dos meninos mais velhos, manobrando exércitos para delimitar território. Morrer de paixão sem jamais declarar-se. Negar até a morte o que estava escrito na testa. Amar era tentar conhecer o outro no exato momento em que a própria anatomia se mostrava uma estranha.

Amar, para os meninos, era desejar o corpo e barganhar com a alma. Para as meninas, ao contrário, era desejar a alma e negociar com o corpo. Daí o sofrimento dos homens: desde os primeiros ensaios do que era amar, as trocas estavam flagrantemente desequilibradas. Isso explica, mas não justifica, a desonestidade daqueles que surrupiavam a contrapartida. Amar, então, era chorar o desamor nos ombros dos amigos. Amigos que, em alguns casos, morriam de amor em segredo.
Amar era, também, odiar. Odiar, antes de tudo, a própria inexperiência. Odiar o deboche dos outros, as dúvidas ruminantes, as recusas, os enganos. Odiar o ciúme, efeito colateral presente em quase todas as primeiras paixões. Sentir um ódio enorme por continuar amando quando jurávamos nunca mais amar. Amar era odiar o amor não correspondido e aprender a lidar com essa frustração.

Por fim, quando eu descobri o amor, amar era olhar com total desdém para as figuras Amar é..., criadas pela neo-zelandesa Kim Grove Casali, sucesso absoluto entre as meninas nos anos 70. Mesmo assim, comprar para elas cartões e outras lembranças com a adocicada mensagem decorada com infantilizados bonequinhos nus. Com isso, amar era aprender a fazer concessões, driblar nossa natureza de ogro, desde que ajudasse a conquistar a amada.
Será que hoje amar ainda teria chance de ser assim?

Rubem Penz

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