Rubem Penz Versão para impressão
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Pergunte a qualquer criança em que lugar está escondido o tesouro do pirata e a resposta será uma só (e correta): embaixo do X. Essa é uma espécie de convenção respeitada desde a mais inocente brincadeira infantil, até a mais fiel reprodução histórica. O X da questão (não o Y) passa a ser o acesso ao mapa, lógico. E, com tal trunfo na memória, Juan Carlos Ramírez Abadía negocia benefícios com a Justiça brasileira.
Abadía não é nenhum Barba Azul ou Jack Sparrow. Sua ação criminosa seguiu, digamos, outra carreira. Porém, a exemplo dos piratas, o traficante colombiano recorreu ao manjado expediente de ocultar tesouros – no caso, pacotes embalados a vácuo com milhões de dólares. Segundo a polícia, US$ 70 milhões já foram desenterrados de pisos e paredes de residências em Cali, na Colômbia. Tudo indica que, com igual estratégia, pode estar abrigada uma fortuna ainda maior em território verde-amarelo. Especulações correm soltas.
Noticia-se que Juan Carlos tem pressa. Como qualquer capitão, bem sabe que muitos marujos ajudaram a esconder o baú. Resta avaliar o quanto de poder ainda lhe resta para ter garantida a fidelidade de seus comandados. E, como nas histórias de galeões com bandeiras negras, a informação é algo que pode lhe manter vivo ou decretar a morte, dependendo de onde soprarem os ventos. A prancha, enfim, está sempre armada – até mesmo para um motim. E os tubarões, famintos.
A hipótese de existirem tesouros escondidos põe um tempero adicional nos leilões dos bens de Abadía. Já pensou se alguém encontrou na garagem o suposto automóvel que ocultava US$ 117 milhões, chamado carro-cofre? Ou, ao fazer uma reforma na casa de praia que um dia foi do traficante – por implicância do decorador com o tom da cerâmica da cozinha –, descobrir uma fortuna absurda em maços de dólares? Outra chance: morrer com um tiro na testa por estar dormindo um sono inocente bem onde o pessoal precisa desencavar um capital desonesto? Na dúvida, prefiro aplicar o dinheiro – que nem tenho – bem distante deste enrosco.
Mas tudo isso ainda me soa muito estranho. Pensei que a delinqüência já havia migrado para recursos mais modernos – eletrônicos – a fim de sumir com tesouros ilícitos. Coisas como contas numeradas em paraísos fiscais, alguns deles ironicamente localizados em ilhas do Caribe. Aliás, nada nos impede de especular sobre a existência de tal destino para abrigar uma parte da fortuna do traficante internacional – êta negócio rentável! Entretanto, diante das descobertas recentes, na noite em que as câmeras de vigilância do presídio flagrarem Juan Carlos Ramírez Abadía sonhando com números, esqueçam os dígitos bancários. Mais eficiente será experimentá-los em combinações de latitude e longitude em um GPS. Quem sabe ali estará escrito, bem certinho, o X do mapa.