Rubem Penz Versão para impressão
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Você está sentado, pressuponho. É sempre bom estar assim no momento de receber uma notícia com peso de confissão. E não pretendo fazer rodeios: sim, sou membro de um grupo de apoio chamado AA. Aprendi que tenho um mal que nasceu comigo, é hereditário e determinante. Algo que me impõe um enfrentamento diário, com coragem, perseverança, conhecimento. Uma característica que já passei para os meus filhos, com certeza, e, por isso, me força a ser um modelo de combate. Quem sabe, ao verem o pai agindo de modo a fugir do padrão estabelecido, consigam do pior se preservarem. E, de alguma forma, anularem isso para futuras gerações. Faço parte, acima do orgulho ou do embaraço, do AA – os Alemães Anônimos.
Quer dizer, anônimos até ali: quem nos olha, logo se dá conta de que somos alemães. Está na cara, a pele denuncia. Também a cor dos olhos, o cabelo, o modo de ser, o sobrenome. Nós vemos, todos veem. Até por isso, nosso AA dispensa reuniões. A quem resolve fazer parte deste grupo, basta estar atento a tudo que implica ser alemão. E cuidar, cuidar muito com as armadilhas. A principal delas, creio, é a de atender às expectativas de cunho preconceituoso, que se agravaram depois da Segunda Guerra Mundial. De pais para filhos, gastamos a pele para fazer sumir a suástica que todos acreditam ter migrado dos uniformes do exército de Hitler para nossos braços. Não é fácil.
Outro desafio diário para quem faz parte do AA é o de amenizar nossa rigidez, nossa severidade. Conseguir achar graça de si mesmo, permitir-se falível, carente, arrependido. Amolecer o coração, desenrugar a testa, relaxar os ombros – essas atitudes que são ridículas de tão fáceis para muita gente, para um alemão viram trabalhos de Hércules. Dois italianos, por exemplo, podem trocar impropérios, jurar-se até de morte em um dia. No outro, estarão à mesa, discutindo o mesmo tema, ou um novo, e a vida continua. Aos alemães de fato, basta uma palavra enviesada, um mal-entendido, e deixarão de se falar até a morte. Mesmo entre pais e filhos. Mesmo entre irmãos. Ou especialmente entre eles.
A melhor maneira de entrar para o AA é, primeiro e definitivamente, assumir-se alemão. Olhar para si e para seus pares e sussurrar: muito bem, o que vou fazer com isso que sou? Afinal, nem tudo é ruim. Aliás, a maior parte dos atributos da alemoada gera bons resultados sociais – garantia até de orgulho. É bem o caso da vergonha: metade do ânimo de um alemão em cuidar do seu jardim e varrer sua calçada vem do prazer de estar em um ambiente bonito e asseado. A outra metade, do que imagina estar pensando o seu vizinho a esse respeito. Sim, “o que eles vão pensar” é quase um lema entre os alemães puro sangue. Na verdade, a questão é “o que eu pensaria se fosse eles”. No mínimo, que sou um relaxado, é a resposta. De todo modo, a cidade dos alemães é sempre limpa e bem cuidada. E isso não é bom?
Diferentemente dos alcoolistas, que em seu AA aprendem a evitar todos os dias o primeiro gole, aos Alemães Anônimos é permitida – até preconizada – a alemoíce social. Fazer deste mal um bem: contribuir para colocar quem está fora dos trilhos na linha e, ao mesmo tempo, descarrilar uma vez que outra. Começar em casa, sendo afetuoso e aberto – desarmando o espírito dos filhos. Mas aplicar isso também na profissão, na vizinhança, na história. Andar de braços nus e mostrar que não existe a suástica presumida. Dar e pedir colo. Perdoar. E, principalmente, perdoar-se.
P.S.: recomendo a todos o excelente filme O Leitor, de Stephen Daldry. Quadro contundente e detalhista do que é ser alemão. Ou, para casos como o meu, um revelador espelho.