Rubem Penz Versão para impressão
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Mal o presidente Lula deixou o comando
da Nação, antes mesmo de notarmos
sua ausência de fato (para muitos,
inclusive para o próprio, a ficha demorará a
cair), a atividade que mais movimentou mão de
obra em seus oito anos de mandato já promete
afundar em uma grave onda de desemprego.
E a culpa deste fenômeno deve ser atribuída
em proporções equânimes ao ex-presidente
e à atual mandatária, recém eleita. Não estou
falando da construção civil, que espera um
2011 auspicioso. Tampouco da indústria e do
comércio, ainda embalados na onda da ascensão
da classe C. O rebanho das vacas magras
pastará, eu garanto, no campo da mídia.
Luiz Inácio, quando subiu a rampa do Planalto,
pareceu não ter encontrado lá no alto
um gabinete. Primeiro, galgou um palanque.
Depois, um palco. Correligionários e oposição
foram unânimes em classificar sua passagem
pelo mais alto cargo da República como sendo
espetacular. Incrivelmente, criticavam-no e
o louvam utilizando igual termo. Afinal, mais
do que um líder, Lula foi um astro.
Desde o primeiro minuto da manhã, até o recostar no
travesseiro, nosso presidente fazia a festa dos
jornalistas de plantão. E, para segui-lo em suas
constantes viagens, os veículos precisaram
montar muitas escalas de profissionais.
Se existiu algum investimento seguro nos
últimos oito anos, foi o de ter repórteres e
fotógrafos colados em Lula. O homem era uma
usina de notícias. Sobre sua cabeça pousaram
centenas de chapéus, para todos os gostos.
Se recebesse motoqueiros, pousava de easy rider.
Em uma plataforma de petróleo, vestia macacão,
capacete e pintava as mãos de negro. Entre
atletas, estava de abrigo esportivo. Opinava
sobre qualquer notícia produzida no globo,
criava metáforas definitivas sobre os mais
variados temas. Para cada líder mundial era
reservada uma graça, em cada viagem oficial
era produzido um fato.
Ou muitos. Fosse para rir, chorar ou esbravejar; provocando encantamento ou indignação, nunca antes na história
desse país alguém foi mais disponível.
No final de semana passado, Dilma Rousseff
esteve em Porto Alegre. Tudo indica
que isso será uma rotina, pois há uma neta
recém nascida, o ex-marido é seu conselheiro
e, enfim, parecem fortes os laços de
família. Agora eu pergunto:
Dilma se vestiu de prenda? Foi ao Galpão Crioulo e fez um
sarandeio enquanto um peão dançava a
Chula? Ao menos comentou sobre o calor
que faz em nosso verão? Nada.
As únicas reportagens produzidas informaram do
aparato de segurança presidencial e que
um rapaz de uma empresa que conserta
aquecedores de água foi chamado para um
reparo em sua residência (tudo assim, indeterminado
mesmo). E nenhuma foto. Muito
menos de Dilma, protagonista, alcançando
a chave de fendas ao operário. Este último,
aliás, soube se tratar de uma cliente ilustre
apenas depois, pela imprensa.
Voilá! Apagaram-se as luzes da ribalta, acendeu
a luz vermelha nas redações. Alerta geral:
nossa presidente, ao que tudo indica, candidatou-
se para baixar a cabeça e trabalhar. E, como
sabe qualquer autor de novela, com as personagens
trabalhando não há trama que se sustente.
Imaginaram um BBB ambientado em um
escritório onde todos estivessem ocupados?
Um desastre! Logo, aquela Dilma onipresente,
sorridente e falante, quase luliforme, era pura
estratégia de campanha – com eficiência comprovada,
diga-se. Na vida real, a presidente
preserva sua intimidade e tem alma de coadjuvante.
A TV, o rádio e o jornal prescindirão de
tanta gente em sua cola.
E nenhum patrão gosta de pagar funcionários ociosos.
Dilma Rousseff poderá cumprir um mandato
excelente, correto, sofrível ou desastroso – só o
futuro dirá. Mas nada indica que teremos outro
governo espetacular. Sem show, não há ibope.
Sem ibope, não há empregos. Fez-se o silêncio
nas redações. Os amigos jornalistas que me
perdoem, mas habitavam uma bolha especulativa
inflada pelo ego do presidente anterior.
Seguindo a cartilha de RH, aproveitem esta
crise para buscar novas oportunidades. Quem
sabe na editoria de esporte? Como diria Lula,
craque de verdade joga nas onze. ‑