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A lei de Gerson
01/13/2010 10:04:24 AM
Quando eu ainda morava no Brasil, lembro de uma propaganda
onde o Gérson (famoso jogador de futebol) estrelava uma campanha de cigarros e falava do tal jeitinho certo e bacana de “levar sempre vantagem”. Acho que esta campanha publicitária fez um estrago no subconsciente coletivo de alguns brasileiros e, mais que nunca, criou-se a cultura do certo é “levar vantagem”. Neste quesito não me sinto orgulhosa de ser brasileira.
Dizendo isso quero contar uma história que aconteceu comigo. Tenho um carro meio velho e rodado, mas que eu gosto muito porque é meu, me leva para todos os lugares que eu quero e me causou poucos problemas até agora. Tenho comigo que a vida é feita de prioridades. Quando um carro mais novo e bacana for prioridade ou se acontecer uma boa oportunidade, vou trocar de carro, se não, eu gosto do meu carro.
Alguém da comunidade achou que eu deveria comprar um carro, “uma raríssima oportunidade de negócio” de eu ter um carro mais “apresentável”. Não estava com muita vontade de comprar outro carro, não queria muito entrar no tal negócio, mas o rapaz soube fazer bem sua persuasão. Eu estava num momento de mudanças e nem tive tempo de entrar em detalhes, vi o carro e me parecia em bom estado. Como a pessoa era alguém próximo, acabei assinando o cheque e fazendo o negócio. Passado o meu sufoco, com calma peguei o título do carro e fui na “Motor Veículos” de Connecticut registrá-lo. Para minha surpresa, o carro era o que eles aqui chamam “salvaged car”, o que quer dizer perda total. Praticamente o veículo foi dado como perda total em um acidente.
No início nem queria muito acreditar, até que a senhora da Motor Veiculos gentilmente me explicou que, na verdade mesmo, por lei este veículo não poderia nem mesmo transitar em Connecticut sem uma devida inspeção, apurada com fotografias e comprovantes de que o carro estava mesmo em “novas condições”. Em outras palavras, cai no “conto do vigário”.
Não valia nem um quarto do preco que me fizeram pagar. Obviamente era um direito meu ter o dinheiro de volta, o que foi recusado numa primeira conversa, mas devido à intervenção de outras pessoas, para o problema nao ficar maior, o dinheiro foi devolvido. Contei esta história para alertar as pessoas de boa fé a não cair na conversa dos “Gérsons” da vida. Posso entender que quando estas coisas acontecem sem que o outro lado tenha intenção, existem muitos modos de contornar a situação pedindo desculpas e a vida continua. Mas que o sujeito, além de se comportar assim, possa adotar ainda uma certa hostilidade, como se fosse eu a tentar levar vantagem na história, é complicado entender.
Bem, a história foi resolvida, mas às vezes fico pensando por que as pessoas pensam que podem enganar as outras? Não é ético, não é bacana. Brasileiros que vivem aqui deveriam refletir e pensar que “a lei do Gérson” não se aplica muito aqui. Aqui é um país de leis e direitos. No Brasil sempre se dá “um jeitinho”. Aqui não funciona. Não comprem carros sem todas as relativas informações, cada detalhe, mas principalmente siga sua intuição, se seu coração não pedir, não faça nenhum negócio.
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