A decepção da família Martin com o veredito foi inevitável. O policial João Vicente Oliveira, acusado de matar o americano Joseph Martin, há quase três anos, foi declarado inocente na quarta-feira (24). O fato acende o sinal de alerta para os inúmeros homicídios cometidos por policiais na capital carioca.
De acordo com o Telegram & Gazette, o julgamento levou menos de 10 horas. Pouco antes da 1h da manhã, o policial era absolvido pelo júri. A sessão começou às 3pm do dia anterior.
Na noite de 25 de maio de 2007, Joseph celebrava seu aniversário de 30 anos em frente a uma casa noturna. Segundo amigos, a vítima tentava evitar que o policial atirasse em um garoto que havia roubado uma bolsa, e acabou sendo baleada. João Oliveira teria ficado preso, mas solto poucas semanas depois do crime e pronto para voltar ao trabalho.
Os advogados de defesa disseram que o seu cliente sofreu ameaças físicas e verbais, antes de atirar. Ainda conforme a defesa, os tiros foram desferidos para o ar e o chão, na tentativa de deter a vítima. Só depois é que João teria atirado diretamente em Joseph.
Mas a Promotora Viviane Tavares Henrique protestou. Segundo ela, a intervenção de Martin e posterior fuga do garoto acusado de roubar a bolsa irritaram o policial. No calor da discussão, ele atirou e matou o americano. “O Sr. Martin nunca foi atrás da arma do policial ou o ameaçou de alguma maneira”, disse ela, que pretende recorrer da sentença.
Segundo Elizabeth Martin, tia da vítima, a promotora chamou a atenção para páginas que faltavam no processo, que conteriam nomes e declarações de testemunhas que contradiziam a versão do réu. Ainda segundo Elizabeth, a defesa argumentou que as páginas faltantes foram um artifício usado pelos americanos, na tentativa de criar uma conspiração no caso.
Para a tia de Martin, a qual atuou como porta-voz da família, estava claro que os advogados de defesa queriam desviar a atenção do tiroteio, alegando que havia uma “intromissão norte-americana” na justiça brasileira.
Contradições
Localizadas por um dos advogados da família da vítima e pelo Consulado Americano no Rio de Janeiro, duas testemunhas teriam dado depoimentos diferentes dos fornecidos anteriormente, segundo Elizabeth. Uma delas se limitou a responder, por inúmeras vezes, “não tenho nada a dizer”. De acordo com Elizabeth, este mesmo homem havia declarado que o policial atirou em Martin de uma distância de aproximadamente 30 pés, o equivalente a pouco mais de 9 metros.
“Tentamos o tempo todo respeitar as diferenças entre as culturas brasileira e americana, mas isto nos deixa simplesmente desanimados”, desabafou Marilyn Martin, outra tia da vítima.
Além de chamar a atenção de grupos de direitos humanos do mundo inteiro, a absolvição do policial brasileiro acende outra preocupação: a segurança da cidade durante os Jogos Olímpicos de 2016. As autoridades da capital carioca já declararam que vão aumentar a segurança durante o evento, mas os críticos de plantão questionam desde agora os métodos que serão empregados.
“Disseram que colocarão mais policiamento nas ruas durante as Olimpíadas. Estranhamente, porém, penso que isto significa que a taxa de homicídios vai aumentar”, disse Elizabeth.