Danbury, CT - Wednesday, February 08 2012
Home | Notícias | Brasil

Brasil

21% da população de Sardoá, MG, está nos Estados Unidos

Moradores da cidade cruzam a fronteira pelo México, sob condições desumanas. Desses, 54% nunca tentaram o visto.

Faixa colocada na praça central da cidade de Sardoá, mostra solidariedade da prefeitura com a morte de Juliard e o desaparecimento de Hermínio.

Faixa colocada na praça central da cidade de Sardoá, mostra solidariedade da prefeitura com a morte de Juliard e o desaparecimento de Hermínio.

Versão para impressão  Versão para impressão
Enviar para um amigo  Enviar para um amigo

O que mais chama a atenção de quem chega pela primeira vez a Sardoá, pequeno município do Vale do Rio Doce, com apenas 5,2 mil habitantes, a 326 quilômetros de Belo Horizonte, é a arquitetura. Nada que remeta aos traços do período colonial característicos das cidades históricas mineiras. São imóveis de até quatro pavimentos, pintados de cores berrantes e com fachadas inteiras de vidro. Muitos sendo ampliados ou reformados. Um desses prédios, na Praça Monsenhor Domingos, foi construído por Claudiney Pereira Félix, de 28 anos. Ele montou sua loja de variedades no primeiro andar, mora no segundo e está quase concluindo o terceiro. O investimento feito pelo comerciante é resultado de nove anos de trabalho duro nos Estados Unidos. Para isso, por duas vezes arriscou a própria vida na travessia ilegal da fronteira com o México. Na primeira ocasião, ficou à deriva em alto-mar, em um pequeno bote com mais 20 pessoas.

Histórias como a de Claudiney são ouvidas em todas as esquinas de Sardoá. Em cada casa ou comércio há, pelo menos, uma pessoa que morou nos EUA, tem parentes lá ou foi barrada pela imigração ao tentar entrar no país. Pesquisa da Universidade do Vale do Rio Doce (Univale) sobre migração, com dados coletados desde 1998 e atualizados mensalmente nos últimos quatro anos, mostra que 89% dos emigrantes do município entram nos Estados Unidos de forma ilegal, cruzando a fronteira pelo território mexicano. Desses, 54% nunca tentaram o visto. Os demais 11% conseguiram autorização da Embaixada Norte-americana no Brasil, como turistas, estudantes ou para trabalhar.

Nas 25 cidades que formam a microrregião de Governador Valadares, 74% dos emigrantes entram pela fronteira com o México, 21% com visto e 5% de outras formas. Só em Valadares, o índice de pessoas que conseguem o visto é de 53%, enquanto as que se aventuram na travessia pelo México somam 42%. Segundo a doutora em sociologia Sueli Siqueira, coordenadora do Núcleo de Estudos Sobre Desenvolvimento Regional da Univale, não há números oficiais de emigrantes que deixam o Vale do Rio Doce, por ano, rumo aos EUA. “O Censo 2010 faz essa pergunta e, só depois, teremos como quantificar”, ressalta a especialista. O prefeito de Sardoá, Edivaldo Carvalhais de Souza (PSDB), afirma que cerca de 1,1 mil habitantes da cidade – 21% da população – emigraram para a América do Norte e outros países, principalmente da Europa, em busca de dólares e euros.

Nem todos têm a mesma sorte que Claudiney. Foi da zona rural de Sardoá e Santa Efigênia de Minas, cidades vizinhas, que os amigos de infância Hermínio Cardoso dos Santos, de 24 anos, e Juliard Aires Fernandes, que faria 20 no dia 8, saíram, no início de agosto, em busca de trabalho e dólares nos Estados Unidos. Cada um pagaria R$ 24,5 mil a cônsules – agenciadores de imigrantes clandestinos – e coiotes – responsáveis pela travessia da fronteira –, que prometeram levá-los são e salvos para o país. Mas o sonho americano dos dois mineiros criados na roça foi interrompido a balas no estado de Tamaulipas, Nordeste do México. Eles estavam entre os 72 imigrantes latino-americanos executados por narcotraficantes do cartel de drogas Los Zetas.

Claudiney “sente frio na espinha” quando lembra o horror que passou nas mãos dos coiotes mexicanos. Na primeira vez que tentou entrar nos Estados Unidos pela fronteira com o país vizinho, em 2000, a travessia foi pelo mar. “Éramos 20 pessoas num bote, de noite, e o motor estragou em alto-mar. Começou a chover e a embarcação foi enchendo de água. Cortamos garrafas plásticas para retirar a água da chuva e, às 5h, conseguimos chegar à praia”, disse. Depois de andar 15 horas, o grupo foi surpreendido pela polícia de imigração do EUA. “Fomos presos. Paguei US$ 3 mil de fiança e assumi o compromisso de comparecer à corte (americana) em seis meses. Mas nunca apareci. Fiquei cinco anos ilegal no país, até ser preso dirigindo com carteira falsa.”

O comerciante foi deportado, mas ficou apenas duas semanas em Sardoá e decidiu novamente arriscar a travessia ilegal. “Dessa vez, foi pela mata. Era um grupo de 42 pessoas e andamos 37 horas, sem descanso, até chegar aos Estados Unidos, onde fomos colocados na carroceria de uma caminhonete, um sobre o outro, até um ponto seguro”, relembra. Foram mais quatro anos em terras do Tio Sam, trabalhando na construção civil, com salário inicial de US$ 7 dólares por hora. Antes de voltar ao Brasil, em julho de 2009, estava recebendo US$ 30 dólares por hora. “Decidi que era hora de retornar. Consegui juntar o suficiente para construir minha casa, montar meu comércio, comprar carro e uma chácara onde minha mãe mora”, afirmou Claudiney, que tem três irmãos morando nos EUA.

Um dos maiores de Sardoá, o imóvel erguido por Claudiney se destaca pelas paredes pintadas de laranja. Sueli Siqueira explica o motivo: “Quando estão nos Estados Unidos, os imigrantes ilegais usam nomes falsos, são indocumentados, invisíveis, vivem escondidos e amedrontados. Construir grandes casas e pintá-las de cores berrantes, quando retornam à cidade natal, é uma forma de reconstituição da personalidade perdida.”

Por: Ernesto Braga - Estado de Minas
Comentários
Carregando...
Edição Impressa
Assine nossa Newsletter
Entre com seu e-mail abaixo para receber nossa newsletter
Publicidade

Comunidade News | Expediente | Fale Conosco | Política de Privacidade | Login

© Comunidade News LLC.

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Comunidade News LLC. <a href="http://marcusnunes.com" title="Marcus Nunes">Marcus Nunes</a> <a href="http://jovemempreendedor.com" title="Jovem Empreendedor">Jovem Empreendedor</a> <a href="http://56coisas.com" title="Listar metas">Listar metas</a>
Connecticut - New York - New Jersey
  Capa | Videos | Expediente | Fale Conosco
Buscar: